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A VOZ DO SILÊNCIO
H.P.Blavatsky (Traduzido por Fernando Pessoa)

PREFÁCIO
(Da tradução inglesa)
As páginas seguintes são extraídas do Livro dos Preceitos de Ouro, uma
das obras lidas pelos estudiosos do misticismo no Oriente. O seu conhecimento é
obrigatório naquela escola cujos ensinamentos são aceitos por muitos
teosofistas. Por isso, como sei de cor muitos destes preceitos, o trabalho de
traduzi-los foi para mim fácil tarefa.
É bem sabido que na Índia os métodos de desenvolvimento psíquico divergem
segundo os Gurus (professores ou mestres), não só porque eles pertencem a
diferentes escolas filosóficas, das quais há seis, mas também porque cada
Guru tem o seu sistema, que em geral mantém cuidadosamente secreto. Mas, para
além dos Himalaias, não há diferença de métodos nas escolas esotéricas, a
não ser que o Guru seja simplesmente um Lama, pouco mais sabendo do que aqueles
a quem ensina.
A obra, de onde são os trechos que traduzo, forma parte da mesma série de onde
são tiradas as estrofes do Livro de Dzyan sobre que A Doutrina Secreta
se baseia. Juntamente com a obra mística chamada Paramartha, a qual
segundo nos diz a lenda de Nagarjuna, foi ditada ao grande Arhat pelos Nagas ou
serpentes - nome dado aos antigos iniciados - o Livro dos Preceitos Áureos
invoca a mesma origem. As suas máximas e conceitos, porém, por nobres e
originais que sejam, encontram-se muitas vezes, sob formas diversas, em obras
sânscritas, tais como o Jnaneshevari, esse soberbo tratado místico em
que Krishna descreve a Arjuna, em cores brilhantes, a condição dum iogue
plenamente iluminado; e ainda em certos Upanishads. Isto, afinal, é
naturalíssimo, visto que quase todos, senão todos, os maiores Arhats, os
primeiros seguidores do Gautama Buda, foram hindus e árias, e não mongóis,
sobretudo aqueles que emigraram para o Tibete. As obras deixadas apenas por
Aryasanghas são, por si só, numerosíssimas.
Os preceitos originais estão gravados sobre lâminas oblongas delgadas; as
cópias, muitas vezes, sobre discos. Estes discos ou chapas são geralmente
conservados nos altares dos templos ligados aos centros onde estão
estabelecidas as chamadas escolas "contemplativas" ou Mahayana (Yogacharya).
Estão escritos de diversas maneiras, às vezes no idioma tibetano, mas
principalmente em idéografos. A língua sacerdotal (senzar), além de por um
alfabeto seu, pode ser traduzida em várias maneiras de escrita em caracteres
cifrados, que têm mais de ideogramas do que de sílabas. Um outro método (lug,
em tibetano) é o de empregar os números e as cores, cada um dos quais
corresponde a uma letra do alfabeto tibetano (trinta letras simples e setenta e
quatro compostas), formando assim um alfabeto criptográfico completo. Quando se
empregam os idéografos há uma maneira certa de ler o texto, pois, neste caso,
os símbolos e os sinais usados na astrologia, isto é, os doze animais
zodíacos e as sete cores primárias, cada uma tripla em seu matiz (claro,
primário e escruro), representam as trinta e três letras do alfabeto simples,
formando palavras e orações. Porque, neste método, os doze animais, cinco
vezes repetidos e juntos aos cinco elementos e às sete cores, compõem um
alfabeto completo de de setenta letras sagradas e doze signos. Um signo posto no
princípio de um parágrafo indica se o leitor tem de soletrar segundo o modo
índio (em que cada palavra é apenas uma adaptação, sânscrita), ou segundo o
princípio chinês de ler os ideógrafos. O método mais fácil é, porém,
aquele que não deixa o leitor empregar qualquer língua especial, ou o que
quiser, visto que os sinais e os símbolos eram, como os números ou algarismos
arábicos, propriedade comum e internacional entre os místicos iniciados e os
seus seguidores. A mesma peculiaridade é característica de uma das maneiras
chinesas de escrever, que pode ser lida com igual facilidade por qualquer pessoa
conhecedora dos caracteres: por exemplo, um japonês pode lê-la na sua língua
tão prontamente como um chinês na sua.
O Livro dos Preceitos Áureos - alguns dos quais são pré-budísticos,
ao passo que outros pertencem a um época posterior - contém uns noventa
pequenos tratados distintos. Destes aprendi de cor, há muitos anos, trinta e
nove. Para traduzir os outros, teria de me referir a apontamentos dispersos
entre um número de papéis e notas, representando um estudo de 20 anos e nunca
postos em ordem, demasiado grande para que a tarefa fosse fácil. Nem poderiam
ser, todos, traduzidos e dados a um mundo por demais egoísta e atado aos
objetos dos sentidos, para que pudesse estar preparado a receber, com a devida
atitude do espírito, uma moral tão elevada. Porque, a não ser que um homem se
entregue perseverantemente ao culto do conhecimento de si próprio, nunca
poderá de bom grado dar ouvidos a conselhos desta natureza.
E, contudo, esta moral enche tomos e tomos da literatura oriental, sobretudo nos
Upanishads. "Mata todo o desejo de viver" - diz Krishna a Arjuna. Esse
desejo mora apenas no corpo, veículo do ser encarnado, e não na própria
Individualidade, que é "eterna, indestrutível, que não mata nem é
mortal".) "Mata a sensação", ensina o Sutta Nipata;
"olha do mesmo modo para o prazer e para a dor, para o ganho e para a
perda, para a vitória e para a derrota". E ainda "busca abrigo só no
eterno" (ibid.) "Destrói o sentido da existência separada" -
repete Krishna de variadas maneiras. "O Espírito (Manas), que segue os
sentidos vagabundos torna a alma (Budhi) tão inerte como o barco que o vento
arrasa sobre as águas" (Bhagavad Gita, II 67).
Por isso se julgou melhor fazer uma escolha judiciosa só entre aqueles tratados
que mais sirvam aos poucos verdadeiro místicos que há na Sociedade Teosófica,
e que com certeza se ajustem às suas necessidades. Só esses compreenderão
estas palavras de Krishna-Christos, a Personalidade Superior.
"Sábios, não choreis nem pelos vivos nem pelos mortos. Nunca deixei de
existir, nem vós, nem estes reis dos homens; nem no futuro deixará qualquer um
de nós de existir" (Bhagavad Gita, II 11-12).
PRIMEIRO FRAGMENTO
A VOZ DO SILÊNCIO
Estas instruções são para aqueles que não conhecem os
perigos dos Iddhi (1)
inferiores.
Aquele que quiser ouvir a voz de Nada
(2),
o Som sem som, e compreendê-la, terá de aprender a natureza do Dharana (3).
Tendo-se tornado indiferente aos objetos da percepção, deve
o aluno procurar o Raja dos sentidos, o produtor de pensamentos, aquele que
acorda a ilusão.
A Mente é a grande assassina do Real.
Que o discípulo mate o assassino.
Porque quando para si mesmo a sua própria forma parece
irreal, como o parecem, ao acordar, todas as formas que ele vê em sonhos;
quando deixar de ouvir os muitos, poderá divisar o Um - o som interior que
mata o exterior.
Então, e só então, abandonará ele a região de Asat, o
falso, para chegar ao reino de Sat, o verdadeiro.
Antes que a Alma possa ver, deve ser conseguida a harmonia
interior, e os olhos da carne tornados cegos a toda a ilusão.
Antes que a Alma possa ouvir, a imagem (o homem) tem de se
tornar surda aos rugidos como aos segredos, aos gritos dos elefantes em fúria
como ao sussurro prateado do pirilampo de ouro.
Antes que a Alma possa compreender e recordar, ela deve
primeiro unir-se ao Falador Silencioso, como a forma que é dada ao barro se
uniu primeiro ao espírito do escultor.
Porque então a Alma ouvirá e poderá recordar-se.
E então ao ouvido interior falará
A Voz do Silêncio
e dirá:
Se a tua Alma sorri ao banhar-se ao sol da tua vida; se a tua
Alma canta dentro da sua crisálida de carne e de matéria; se a tua Alma chora
dentro do seu castelo de ilusão; se a tua Alma se esforça por quebrar o fio de
prata que a liga ao Mestre (4);
sabe, ó discípulo, que a tua Alma é da terra.
Quando ao tumulto do mundo a tua Alma
(5)
que desabrocha dá ouvidos; quando à voz clamorosa da grande ilusão (6)
a tua Alma responde; quando se assusta ao ver as lágrimas quentes da dor,
quando a ensurdecem os gemidos da angústia, quando a Alma se retira, como a
tartaruga tímida, para dentro da concha da personalidade, sabe, ó
discípulo, que do seu Deus silencioso a tua Alma é um sacrário indigno.
Quando, já mais forte, a tua Alma vai saindo do seu retiro
seguro; quando, deixando o sacrário protetor, estende o seu fio de prata e
avança; quando, ao contemplar a sua imagem nas ondas do espaço, ela murmura,
“Isto sou eu” - declara, ó discípulo, que a tua Alma está presa nas
teias da ilusão (7).
Esta terra, discípulo, é a sala da tristeza, onde existem,
pelo caminho das duras provações, armadilhas para prender o teu Eu na
ilusão chamada “a grande heresia” (8).
Esta terra, ó discípulo ignaro, não é senão a triste
entrada para aquele crepúsculo que precede o vale da verdadeira luz - essa luz
que nenhum vento pode apagar, e que arde sem óleo nem pavio.
Diz a grande Lei: “Para te tornares o
conhecedor da
Personalidade Total (9),
tens primeiro de conhecer a Personalidade”. Para chegares ao conhecimento
dessa Personalidade, tens de abandonar a personalidade à não-personalidade,
o ser ao não-ser, e poderás então repousar entre as asas da Grande Ave.
Sim, suave é o descanso entre as asas daquilo que não nasce, nem morre, mas é
o AUM (10)
através de eras eternas (11).
Cavalga a Ave da Vida, se queres saber
(12).
Abandona a tua vida, se queres viver (13).
Três salas, ó cansado peregrino, conduzem ao fim dos
trabalhos. Três salas, ó conquistador de Mara, te trarão através de três
estados (14)
até ao quarto (15),
e daí até aos sete mundos (16),
os mundos do descanso eterno.
Se queres saber os seus nomes, escuta-os e aprende-os.
O nome da primeira sala é Ignorância - Avidya. É a sala em
que viste a luz, em que vives e hás de morrer (17).
O nome da segunda sala é a Sala da Aprendizagem
(18). Nela a tua Alma encontrará as flores da vida, mas debaixo de cada flor uma
serpente enrolada (19).
O nome da terceira sala é Sabedoria, para além da qual se
estende o mar sem praias de Akshara, a fonte indestrutível da onisciência
(20) .
Se queres atravessar seguramente a primeira sala, que o teu
espírito não tome os fogos da luxúria que ali ardem pela luz do sol da vida.
Se queres atravessar seguramente a segunda, não pares a
aspirar o perfume das suas flores embriagantes. Se queres ver-te livre das
peias cármicas, não procures o teu Guru nessas regiões mayávicas.
Os sábios não se demoram nas regiões de prazer dos
sentidos.
Os sábios não dão ouvidos às vozes musicais da ilusão.
Procura aquele, que te dará o ser (21),
na Sala da Sabedoria, a sala que está para além, onde todas as sombras são
desconhecidas e onde a luz da verdade brilha como uma glória imorredoura.
Aquilo que é incriado está dentro de ti, discípulo, assim
como está naquela sala. Se queres possuí-lo, e unir as duas coisas, tens de
despir os teus negros trajes de ilusão. Abafa a voz da carne, não deixes que
qualquer imagem dos sentidos se entreponha entre a sua luz e a tua, para que
assim as duas se fundam em uma. E, tendo aprendido a tua Ajnana (22),
abandona a Sala da Aprendizagem. Essa sala é perigosa pela sua beleza pérfida,
e só é precisa para a tua provação. Acautela-te Lanu, não vá a tua Alma,
entontecida pelo brilho ilusório, demorar-se e enredar-se na sua luz
enganadora.
Esta luz brilha na jóia do grande enganador (Mara)
(23). Enfeitiça os sentidos, cega o espírito e deixa o descuidado naufragado e
sozinho.
A borboleta atraída para a chama da tua lâmpada noturna
está condenada a ficar morta no azeite. A alma incauta, que não pode
defrontar-se com o demônio escarninho da ilusão, voltará ao mundo escrava de
Mara.
Olha as hostes das Almas. Vê como elas pairam sobre o mar
tempestuoso da vida humana, e como, exaustas, sangrando, de asas quebradas,
caem, uma após outra, nas ondas encapeladas. Batidas pelos ventos ferozes,
perseguidas pelos vendavais, são arrastadas para os sorvedouros e somem-se
pelo primeiro grande vértice que encontram.
Se, passando pela Sala da Sabedoria, queres chegar ao vale
da felicidade, fecha, discípulo, os teus sentidos à grande e cruel heresia
da separação, que te afasta dos outros.
Que aquilo que em ti é de origem divina não se separe,
engolfando-se no mar de Maya (24),
do Pai Universal (a Alma), mas que o Poder de Fogo (25)
se retire para a câmara interior, a câmara do coração (26),
e o domicílio da Mãe do Mundo (27).
Então do coração esse poder subirá até à sexta região,
à região média, ao lugar entre os teus olhos, quando se toma a respiração
da Alma-Única, a voz que enche tudo, a voz do seu Mestre.
É só então que te podes tornar um “que anda nos céus”
(28),
que pisa os ventos por cima das ondas, cujo passo não toca nas águas.
Antes que ponhas o pé sobre o degrau superior da escada,
da escada dos sons místicos, tens de ouvir de sete maneiras a voz do teu Deus
interior (29).
A primeira é como a voz suave do rouxinol cantando à sua
companheira uma canção de despedida.
A segunda vem como o som de um címbalo de prata dos
Dhyanis, acordando as estrelas lucilantes.
A terceira é como o lamento melodioso de um espírito do
oceano prisioneiro na sua concha.
E a esta segue-se o canto da vina (30).
A quinta, como o som de uma flauta de bambu, grita aos teus
ouvidos.
Muda depois para um clamor de trompa.
A última vibra como o rumor surdo de uma nuvem de trovoada.
A sétima absorve todos os outros sons. Eles morrem, e não
tornam a ouvir-se.
Quando os seis (31)
estão mortos e postos aos pés do mestre, então se entrega o aluno no Único (32),
se torna esse Único e nele vive.
Antes que possas entrar para esse caminho, tens de destruir
o teu corpo lunar (33),
e limpar o teu corpo mental (34),
assim como o teu coração.
As águas puras da vida eterna, límpidas e cristalinas, não
podem misturar-se com as torrentes lamacentas da tempestade de monção.
O orvalho do céu brilhando ao primeiro raio do sol no
coração do lótus, quando cai na terra torna-se uma, gota de lama; vede como a
pérola se tornou uma porção de lodo.
Luta com os teus pensamentos desonestos antes que eles te
dominem. Trata-os como eles te querem tratar, porque, se os poupas, criarão
raízes e crescerão, e repara, esses pensamentos dominar-te-ão até que te
matem. Acautela-te, discípulo, não deixes aproximar-se mesmo a sua sombra.
Porque ela crescerá, aumentará em tamanho e poder, e então essa coisa escura
observará o teu ser antes que te apercebas da presença do monstro hediondo e
negro.
Antes que o poder místico (35)
te possa fazer um Deus, Lanu, deves ter adquirido a faculdade de matar, quando
quiseres, a tua forma lunar.
A pessoa da matéria e a Pessoa do Espírito nunca se podem
encontrar. Uma delas tem de desaparecer; não há lugar para ambas.
Antes que a mente da tua Alma possa compreender, deve a flor
da personalidade ser esmagada em botão, e o verme dos sentidos destruído até
não poder ressurgir.
Não podes caminhar no Caminho enquanto não te tornares, tu próprio, esse
Caminho (36).
Que a tua Alma dê ouvidos a todo o grito de dor como a flor
de lótus abre o seu seio para beber o sol matutino.
Que o sol feroz não seque uma única lágrima de dor antes
que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre.
Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e
aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.
Estas lágrimas, ó tu de coração tão compassivo, são os
rios que irrigam os campos da caridade imortal. É neste terreno que cresce a
flor noturna de Buda (37),
mais difícil de achar, mais rara de ver, do que a flor da árvore Vogay. É a
semente da libertação do renascer. Ela isola o Arhat tanto da luta como da luxúria,
leva-o através dos campos do ser para a paz e a felicidade que só se conhecem
na terra do silêncio e do não-ser.
Mata o desejo; mas se o matares, cuida bem em que ele não
renasça da morte.
Mata o amor da vida; mas se matares Tanha
(38),
que isso não seja pela ânsia da vida eterna, mas para substituir o evanescente
pelo eterno.
Não desejes nada. Não te indignes contra o Carma, nem
contra as leis imutáveis da natureza. Mas luta apenas com o pessoal, o
transitório,
o evanescente e o que tem de perecer.
Auxilia a natureza e trabalha com ela; e a natureza ter-te-á
por um dos seus criadores, obedecendo-te.
E ela abrirá de par em par diante de ti as portas das suas
câmaras secretas, desnudará ao teu ornar os tesouros ocultos nas profundezas
do seu seio virgem. Impoluída pela mão da matéria, ela revela os seus
tesouros apenas aos olhos do Espírito - os olhos que nunca se fecham, os olhos
para os quais não há véu em todos os seus remos.
Então ela te mostrará o meio e a senda, a primeira porta, e
a segunda, e a terceira, até à própria sétima porta. E então a meta, para
além da qual estão, banhadas pelo sol do Espírito, glórias indizíveis,
que só o olhar da Alma pode ver.
Há só uma senda até ao Caminho; só chegado bem ao fim
se pode ouvir a Voz do Silêncio. A escada pela qual o candidato sobe é
formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só podem ser calados pela voz
da virtude. Ai de ti, pois, discípulo, se há um único vício que não
abandonaste; porque então a escada abaterá e far-te-á cair; a sua base assenta
no lodo fundo dos teus pecados e defeitos, e antes que possas tentar atravessar
esse largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas águas da
renúncia. Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no primeiro degrau da
escada. Ai daquele que ousa poluir um degrau com seus pés lamacentos. A lama
vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabara por colar-lhe o pé ao
degrau; e, como uma ave presa no visco do caçador sutil, ele será afastado de
todo o progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma e puxá-lo-ão para
baixo. Os seus pecados erguerão a voz, como o riso e soluço do chacal depois
do sol se por; os seus pensamentos tornar-se-ão um exército e levá-lo-ão
consigo, como um escravo cativo.
Mata os teus desejos, Lanu; torna os teus vícios impotentes,
até dares o primeiro passo na jornada solene.
Estrangula os teus pecados, torna-os mudos para sempre,
antes que ergas um pé para subir a escada.
Faze calar os teus pensamentos e concentra toda a tua
atenção sobre o teu Mestre, que tu por enquanto não vês, mas sentes.
Funde num só sentido todos os teus sentidos, se queres
tomar-te seguro contra o inimigo. É só por aquele sentido que está oculto
no vácuo do teu cérebro, que o caminho íngreme que conduz ao teu Mestre se
pode revelar aos olhos indecisos da tua, Alma.
Longa e fatigante é a senda ante ti, ó discípulo. Um
único pensamento a respeito do passado que abandonaste puxar-te-á para baixo,
e terás novamente de começar a ascensão.
Mata em ti toda a recordação de experiências passadas.
Não te voltes para trás ou estás perdido.
Não creias que a luxúria pode alguma vez ser morta se é
satisfeita ou saciada, porque isso é uma abominação inspirada por Mara.
É alimentando o vício que ele se expande e torna forte,
como o verme que se alimenta no seio da flor.
A rosa tem de tornar a ser o botão, nascido da sua haste
paterna, antes que o parasita lhe tenha roído o seio e bebido a seiva da sua
vida.
A árvore dourada dá flores de jóia, antes que o seu tronco
esteja gasto pela tormenta.
O aluno tem de tornar ao estado de infância que perdeu
antes que o primeiro som lhe possa soar ao ouvido.
A luz do único Mestre, a única, eterna, luz dourada do
Espírito, derrama os seus raios fulgurantes sobre o discípulo desde o
princípio. Os seus raios atravessam as nuvens espessas e pesadas da
matéria.
Ora aqui, ora ali, esses raios iluminam-na, como os raios do
sol iluminam a terra através das espessas folhas da floresta. Mas, ó
discípulo, a não ser que a carne seja passiva, a cabeça lúcida, a Alma
firme e pura como um diamante que cintila, o fulgor não chegará à câmara, a
sua luz do sol não aquecerá o coração, nem os sons místicos das alturas
akashicas (39)
chegarão ao ouvido, por atento que ele esteja, no estágio inicial.
A não ser que ouças, não poderás ver.
A não ser que vejas, não poderás ouvir. Ouvir e ver, eis o
segundo estágio.
........................................................
Quando o discípulo vê e ouve, e quando cheira e gosta, com
os olhos fechados, os ouvidos fechados, tapados o nariz e a, boca; quando os
quatro sentidos se fundem e estão prontos a tornar-se o quinto, aquele do tato
interior - então passou ele para o quarto estágio.
E no quinto, á matador dos teus pensamentos, todos estes
têm de ser outra vez mortos até não ser possível reanimarem-se (40).
Retira a tua mente de todos os objetos externos, de todas as
vistas externas. Retira as imagens internas, para que não lancem uma sombra
negra sobre a luz da tua Alma.
Estás agora em Dharana (41),
o sexto estágio.
Quando tiveres passado para o sétimo, ó bem-aventurado,
não mais verás os Três sagrados (42),
porque te terás, tu
próprio, tornado esses Três. Tu próprio e a mente, como
gêmeos sobre uma linha, a estrela que é o teu guia brilha por cima, nas
alturas (43).
Os Três que moram na glória e na felicidade inefáveis, agora perderam os seus
nomes no mundo de Maya. Tornaram-se uma só estrela, o fogo que arde mas não
queima, o fogo que é o Upadhi (44)
da chama.
E isto, ó iogue do sucesso, é aquilo a que os homens chamam
Dhyana (45),
o verdadeiro precursor do Samadhi (46).
E agora a tua personalidade está perdida na Personalidade,
tu para contigo próprio imerso naquela Personalidade de onde primeiro
irradiaste.
Onde está a tua individualidade, Lanu, onde está o próprio
Lanu? É a fagulha perdida no meio do fogo, a gota dentro do oceano, o raio de
luz sempre presente tornado o Todo e o fulgor eterno.
E agora, Lanu, tu és o agente e a testemunha, o que
irradia e a irradiação, a luz no som, e o som na luz.
Conheces, ó bem-aventurado, os cinco impedimentos. Tu és
o seu conquistador, o mestre do sexto, libertador dos quatro modos da verdade
(47) - A luz que cai sobre eles brilha de ti, à tu que foste discípulo, mas
agora és professor.
E destes modos da verdade:
Não atravessaste tu o conhecimento de toda a dor - primeira
verdade?
Não venceste tu o rei dos Maras em Tsi, a porta da reunião
(48)
- segunda verdade?
Não destruíste tu o pecado à terceira porta, atingindo a
terceira verdade?
Não entraste tu para Tau, o caminho que leva ao conhecimento
(49)
a quarta verdade?
E agora, descansa sob a árvore de Bodhi, que é a
perfeição de todo o conhecimento, porque, sabe-o, és possuidor de Samadhi - o
estado da visão infalível.
Vê! tornaste-te a luz, tornaste-te o som, és o teu Mestre e
o teu Deus. Tu próprio és o objeto da tua busca: a voz sem falha, que ressoa
através de eternidades, isenta de mudança, isenta de pecado, os sete sons em
um,
A Voz do Silêncio.
Om Tat Sat.
SEGUNDO FRAGMENTO
OS DOIS CAMINHOS
E AGORA, ó Mestre da compaixão, ensina tu o caminho aos
outros homens. Olha, todos aqueles que, batendo para que os admitam, esperam na
ignorância e na escuridão ver abrir-se a porta da suave Lei!
A voz dos candidatos:
Não quererás tu, Mestre da tua própria misericórdia,
revelar a doutrina do coração (50)?
Recusar-te-ás a conduzir os teus servos até ao Caminho da libertação?
Diz o mestre:
Os caminhos são dois; as grandes perfeições três; seis as
virtudes que transformam o corpo na árvore da sabedoria (51).
Quem se aproximará delas?
Quem primeiro entrará para elas?
Quem primeiro ouvirá a doutrina dos dois caminhos em um, a
verdade sem véu a respeito do Coração Secreto (52)?
A lei que, rejeitando o aprender, ensina a sabedoria, revela uma história de
dor.
Ai de nós, ai de nós, que todos os homens possuam Alaya,
sejam unos com a grande Alma, e que, possuindo-a, Alaya de tão pouco lhes
sirva!
Repara como, qual a lua se reflete nas
ondas tranqüilas,
Alaya é refletida pelos pequenos e pelos grandes, espelhado nos átomos
ínfimos, e contudo não consegue chegar ao coração de todos. Ai de nós, que
tão poucos sejam os homens que se aproveitem do dom, do dom sem preço, de
aprender a verdade, a verdadeira percepção das coisas existentes, o
conhecimento do não-existente!
Diz o aluno:
Ó Mestre, que farei eu para atingir a
sabedoria? Ó
Sábio, que farei para conseguir a perfeição?
Procura os caminhos. Mas, ó Lanu, sê puro de coração
antes que comeces a tua jornada. Antes que dês o primeiro passo, aprende a
separar o real do falso, o transitório do eterno. Aprende sobretudo a separar a
ciência da cabeça da sabedoria da Alma, a doutrina dos “olhos” da doutrina
do “coração”.
Sim, a ignorância é como uma vasilha
fechada e sem ar; a
Alma uma ave dentro dela. Não canta, nem pode mexer uma pena; mas jaz num
torpor e morre de não poder respirar.
Mas mesmo a ignorância é melhor do que a ciência de
cabeça sem a sabedoria de Alma para a iluminar e guiar.
As sementes da sabedoria não podem germinar e crescer no
espaço sem ar. Para viver e comer experiência, o espírito precisa espaço e
profundidade e pontos que o guiem para a Alma de Diamante (53).
Não procures esses pontos no reino de Maya; mas ergue-te acima das ilusões,
busca o eterno e imutável Sat (54),
desconfiando das falsas sugestões de fantasia.
Porque a mente é como um espelho;
cobre-se de pó ao mesmo
tempo que reflete (55).
Precisa que as brisas leves da sabedoria de Alma limpem o pó das
nossas
ilusões. Procura, ó principiante, fundir a tua mente e a tua Alma.
Afasta-te da ignorância e da ilusão
também. Vira o rosto
às decepções do mundo; desconfia dos teus sentidos; eles mentem. Mas dentro
do teu corpo - escrínio das tuas sensações - procura no impessoal o Homem
Eterno (56)
e, tendo-o procurado, olha para dentro; tu és Buda (57).
Rejeita o aplauso, ó crente; o aplauso conduz à ilusão de
si próprio. O teu corpo não é Personalidade, a tua Personalidade é, em si,
sem corpo, e o elogio ou a censura não a atingem.
O contentamento de si próprio, ó
discípulo, é uma torre
altíssima, à qual um insensato orgulhoso subiu. Ali se senta em orgulhosa
solidão, invisível a todos, salvo a si próprio.
A falsa ciência é rejeitada pelos sábios, e espalhada aos
ventos pela Boa Lei. A sua roda gira para todos, tanto para os humildes como
para os orgulhosos. A doutrina dos olhos é para a multidão; o doutrina do
coração para os eleitos. Os primeiros repetem, orgulhosos: “Vede, eu sei”;
os últimos, aqueles que humildemente fizeram a sua colheita, confessam em voz
baixa: “Assim ouvi” (58).
“A Grande Joeira” é o nome da Doutrina do Coração, ó
discípulo.
A roda da Boa Lei gira rapidamente.
Noite e dia mói.
Afasta o joio do trigo dourado, e a casca da farinha. A mão do Carma guia a
roda; as rotações marcam o bater do coração cármico.
O verdadeiro conhecimento é a farinha, a falsa ciência é a
casca. Se queres comer o pão da sabedoria, tens de amassar a tua farinha com a
água límpida de Amrita (59).
Mas, se amassas cascas com o orvalho de Maya, só podes criar alimento para as
pombas negras da morte, as aves da nascença, da decadência e da tristeza.
Se te disserem que para te tornares Arhan tens de deixar de
amar todas as coisas - dize-lhes que mentem.
Se te disserem que para te libertares tens de odiar a tua
mãe e desprezar o teu filho; de renegar o teu pai e chamar-lhe dono de casa (60);
de renunciar toda a compaixão pelos homens e pelos animais - dize-lhes que as
suas palavras são falsas.
Assim ensinam os Tirthikas (61),
os descrentes.
Se te ensinarem que o pecado nasce da ação e a felicidade
da inação absoluta, dize-lhes que se enganam. A não-permanência da ação
humana, a libertação da mente da sua escravidão pela cessação do pecado e
das culpas não são coisas para os Eus Devas (62).
Assim reza a doutrina do coração.
O Dharma (63)
dos olhos é a corporização do externo e do não-existente.
O Dharma do coração é a corporização de Bodhi
(64),
o eterno e o permanente.
A lâmpada brilha bastante quando estão limpos pavio e
óleo. Para limpá-los é preciso quem os limpe. A chama não sente o processo
de limpeza. “Os ramos de uma árvore são sacudidos pelo vento; o tronco
fica imóvel”.
Tanto a ação como a inação podem caber em ti; o teu corpo
agitado, a tua mente tranqüila, a tua Alma límpida como um lago de montanha.
Queres tu tornar-te um iogue do círculo do tempo? Então, ó Lanu:
Não creias que sentando-te em florestas escuras, em
orgulhosa reclusão, longe dos homens; não creias que a vida alimentada a
plantas e raízes, saciada a sede com a neve da. grande Cordilheira - não
creias, ó devoto, que isto te levará à meta da libertação final.
Não julgues que o partir dos ossos, o
rasgar da carne e
dos músculos, te unirá à tua Personalidade silenciosa (65).
Não julgues que quando estão vencidos os pecados da tua forma grosseira, ó
vítima das tuas sombras (66),
o teu dever está cumprido para com a natureza e com os homens.
Os bem-aventurados não quiseram fazer assim. O Leão da Lei,
o Senhor da Misericórdia (67),
percebendo a verdadeira causa da dor humana, imediatamente abandonou o repouso
suave mas egoísta das solidões sossegadas. De Aranyaka (68)
tornou-se o Mestre da humanidade. Depois de Julai (69)
ter entrado para o Nirvana, ele pregou em montanhas e planícies, fez sermões
nas cidades, aos Devas, aos homens e aos Deuses (70).
Semeia boas ações e colherás o seu fruto. A inação num
ato de misericórdia passa a ser a ação num pecado mortal.
Assim diz o Sábio:
Por que queres abster-te da ação? Não é assim que a tua
Alma conseguirá a sua liberdade. Para chegar ao Nirvana é preciso chegar
ao conhecimento de Si próprio, e o conhecimento de Si próprio é filho de
ações caridosas.
Tem paciência, candidato, como quem não teme falhar, nem
procura triunfar. Fixa o olhar da tua Alma na estrela cujo raio és (71),
a estrela chamejante que brilha nas profundezas sem luz do ser eterno, nos
campos sem limite do desconhecido.
Tem perseverança, como aquele que tem de sofrer eternamente.
As tuas sombras vivem e desaparecem (72);
aquilo que em ti viverá para sempre, aquilo que em ti conhece (porque é o
conhecimento) não é da vida transitória; é o Homem que foi, que é, e que
há de ser, para quem a hora nunca soará.
Se queres colher a suave paz e o descanso, discípulo, semeia
as sementes do mérito nos campos das colheitas futuras. Aceita as dores da
nascença.
Afasta-te da luz do sol para a sombra, para dares mais
espaço aos outros. As lágrimas que regam o solo árido da dor e da tristeza fazem nascer as flores e os frutos da
retribuição cármica. Da
fornalha da vida humana e do seu fumo denso, saltam chamas aladas, chamas
purificadas, que, erguendo-se alto, sob o olhar cármico, tecem por fim o tecido glorioso das três vestes do Caminho (73).
Essas vestes são: Nirmanakaya,
Sambhogakaya, e Dharmakaya,
traje sublime (73).
A veste Shangna, (74)
é certo, pode comprar a luz eterna. A veste Shangna, por si só, dá o
Nirvana da destruição; pára o renascer, mas, ó Lanu, também mata a
compaixão. Os Budas perfeitos, que vestem a glória do Dharmakaya, já não
podem contribuir para a salvação humana. Ai de nós! Devem as personalidades
ser sacrificadas a uma só? Deve a humanidade ser sacrificada ao bem de
indivíduos?
Aprende, ó principiante, que este é o
caminho aberto, o
caminho para a felicidade egoísta, evitado pelos Bodhisattvas do Coração
Secreto, os Budas da Compaixão.
Viver para servir a humanidade é o
primeiro passo.
Praticar as seis virtudes gloriosas (75)
é o segundo.
Vestir a veste humilde do Nirmanakaya é rejeitar para si a
felicidade eterna, para poder auxiliar a salvação humana. Chegar à felicidade
do Nirvana, mas renunciar a ela, é o passo supremo, final - o mais alto no
caminho da renúncia.
Aprende, ó discípulo, que é este o
caminho secreto,
escolhido pelos Budas da perfeição, que sacrificaram a sua Personalidade a
personalidades mais fracas.
Mas, se a doutrina do coração é alta demais para ti, se
precisas te auxiliar a ti próprio e receias oferecer auxílio aos outros -
então, tu de coração tímido, acautela-te a tempo; contenta-te com a doutrina
ocular da Lei. Continua esperando. Porque se o Caminho Secreto não é
atingível hoje, amanhã (76)
estará ao teu alcance, Aprende que não há esforço, por pequeno que seja
quer no bom sentido, quer no mau - que possa perder-se e desaparecer no mundo
das causas. Mesmo o fumo dado ao vento não é sem rastro. “Uma palavra brusca
dita em vidas passadas não se perde, mas renasce sempre” (77).
A pimenteira não produz rosas, nem a estrela de prata do jasmim se torna
espinho ou cardo.
Podes criar hoje tuas oportunidades de amanhã. Na Grande
Jornada (78),
as causas semeadas cada hora produzem cada qual a sua colheita de efeitos,
porque uma justiça inalterável rege o mundo. Com o vasto alcance de ação
infalível ela traz aos mortais vida de alegria ou de angústia, a prole
cármica dos nossos pensamentos e ações anteriores.
Aceita, pois, tanto quanto o mérito te reserva, ó de
coração paciente. Anima-te e contenta-te com a sorte. Tal é o teu Carma, o
Carma do ciclo dos teus nascimentos, o destino daqueles que, na sua dor e
tristeza, nascem a ti ligados, riem e choram de vida a vida, presos às tuas
ações anteriores.
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Age tu por eles hoje, e eles agirão por ti amanhã.
É do botão da renúncia da sua própria personalidade que
nasce o fruto doce da libertação final.
Condenado a perecer é aquele que por medo de Mara deixa de
auxiliar os homens, receando agir em proveito próprio. O peregrino que quer
refrescar os seus membros lassos em águas correntes, mas não mergulha por medo
à corrente, arrisca-se a morrer de calor. A inação baseada no medo egoísta
não pode dar senão mau fruto.
O devoto egoísta vive inutilmente. Vive em vão o homem que
não realiza na vida a obra para que nasceu.
Segue a roda da vida; segue a roda do dever para com a tua
raça e os do teu sangue, para com o amigo e o inimigo, e fecha a tua mente
tanto aos prazeres como à dor. Esgota a lei da retribuição cármica. Adquire
siddhis (79)
para o teu nascimento futuro.
Se não podes ser o sol, sê então o humilde planeta. Sim,
se te é impossível brilhar como o sol do meio-dia sobre o monte nevado da
pureza eterna, então escolhe, ó neófito, uma carreira mais humilde.
Aponta o caminho - por vagamente que o faças, e perdido
entre a multidão - como a estrela da tarde àqueles que caminham pela
escuridão.
Olha Migmar (80), quando nos seus véus
carmesins o seu
olhar se derrama sobre a Terra que dorme. Olha a aura de fogo da mão de Lhagpa (81)
estendida com amorosa proteção por sobre as cabeças dos seus ascetas. Ambos
são agora servos de Nyima (82),
ficando, na sua ausência, como sentinelas silenciosas na noite. Foram,
contudo, em kalpas passados, Nyimas brilhantes, e talvez em dias futuros se
tornem outra vez dois sóis. Tais são as descidas e subidas da lei cármica
na natureza.
Sê, ó Lanu, como eles. Dá luz e conforto ao peregrino
cansado, e procura aquele que sabe ainda menos do que tu; que na sua desolação miserável está faminto do pão da
sabedoria e do pão que
alimenta a sombra, sem Mestre, esperança ou consolação, e fá-lo ouvir a
Lei.
Dize-lhe, ó candidato, que aquele que faz do orgulho e do
egotismo servos da devoção; que aquele que, tenaz da sua existência, em todo
o caso depõe a sua paciência e submissão à Lei como uma flor aos pés de
Shakya-Thub-pa (83),
se torna um Srotapatti (84) neste
nascimento. Os Siddhis da perfeição podem ainda estar longe, muito longe; mas
está dado o primeiro passo, ele entrou para o rio, e pode adquirir a visão
da águia das montanhas, o ouvido da tímida corça.
Dize-lhe, ó aspirante, que a verdadeira devoção pode
tornar a dar-lhe o conhecimento, aquele conhecimento que era seu nas suas
vidas anteriores. A visão dévica e o ouvido dévico não se podem obter em
uma breve vida.
Sê humilde, se queres adquirir a
sabedoria: sê mais
humilde ainda, quando a tiveres adquirido.
Sê como o oceano, que recebe todos os rios e riachos. A
calma imensa do oceano não se perturba; recebe-os e não os sente.
Domina o teu ser interior com o teu ser divino. Domina o
divino com o eterno.
Sim, grande é aquele que mata o desejo: maior ainda é
aquele em quem a divina Personalidade matou o próprio conhecimento do desejo.
Põe-te de guarda ao inferior, para que não macule o
superior.
O caminho para a libertação final está dentro da tua
personalidade. Esse caminho começa e acaba fora da personalidade (85).
Sem elogios de todos os homens e humilde é a mãe de todos
os rios na vista orgulhosa de Tirthika (86);
vazia a forma humana, ainda que cheia das águas suaves de Amrita ao olhar dos
insensatos. E, contudo, a origem dos rios sagrados é a terra sagrada (87),
e aquele que possui a. sabedoria é respeitado por todos os homens.
Arhans e Sábios da visão ilimitada (88)
são raros como a flor da árvore Udumbara. Os Arhans nascem à meia-noite, com
a planta sagrada de nove e sete caules (89), a flor sagrada que desabrocha e floresce na escuridão, saída do orvalho puro e
do leito gelado das alturas nevadas, alturas que nenhum pé pecador pisou.
Nenhum Arhan, ó Lanu, se torna um
naquela vida em que pela
primeira vez a Alma começa a ansiar pela libertação final. E, contudo, ó
ansioso, a nenhum guerreiro oferecendo-se voluntariamente para a terrível
luta entre o vivo e o morto (90) ,
a nenhum recruta pode ser recusado o direito de entrar no caminho que conduz ao
campo de batalha.
Porque ou vence ou cai.
Sim, se vence, o Nirvana será seu. Antes de abandonar a sua
sombra, de enjeitar a sua veste mortal, essa causa abundante de angústia e de
dor ilimitável, os homens honrarão nele um Buda grande e sagrado.
E se cai, mesmo assim não cai em vão; os inimigos que
abateu na última batalha não tornarão a viver na sua próxima encarnação.
Mas, se queres chegar ao Nirvana, ou
rejeitar esse prêmio
(91),
não deixes o fruto da ação e da inação ser o teu motivo, ó de coração
indômito.
Aprende que ao Bodhisattva que troca a libertação pela
renúncia para vestir as angústias da vida secreta (92),
chama-se três vezes venerado, ó candidato à dor através dos ciclos.
O Caminho é um, discípulo, mas, no fim, duplo. Marcados
estão os seus estágios por quatro e sete portas. A uma extremidade a
felicidade imediata, à outra, felicidade renunciada. Ambos são a
recompensa do mérito: a escolha a ti pertence.
O um toma-se os dois, o Aberto e o
Secreto
(93).
O primeiro leva à meta, o segundo à imolação de si próprio.
Quando ao permanente o mutável se
sacrifica, o prêmio é
teu; volta a gota ao lugar de onde veio, O Caminho Aberto conduz à mudança
imutável - Nirvana, o estado glorioso de absoluto, a felicidade para além da
concepção humana.
Assim, o primeiro caminho é a Libertação.
Porém, o segundo caminho é a Renúncia; por isso é chamado
o Caminho da Dor.
O Caminho Secreto conduz o Arhan a uma angústia mental
inexprimível; dor pelos mortos que estão vivos (94),
e compaixão inútil pelos homens da tristeza cármica; o fruto do Carma não
ousam os Sábios fazer parar.
Porque está escrito: “Ensina a evitar todas as causas;
à maré do efeito, como à grande onda, deixarás seguir o seu curso”.
O Caminho Aberto, mal chegaste ao seu fim, levar-te-á a
rejeitar o corpo bodhisattvico, e far-te-á entrar para o estado três vezes
glorioso de Dharmakaya (95),
que é o eterno esquecimento dos homens e do mundo.
A estrada secreta também conduz à
felicidade
paranirvânica - mas ao termo de kalpas inúmeros; Nirvanas ganhos e perdidos
por uma piedade e compaixão ilimitadas pelo mundo de mortais iludidos.
Mas diz-se: “O último será o maior”. Samyak Sambuda, o
Mestre da perfeição, abandonou a sua Personalidade para salvação do mundo,
parando no limiar do Nirvana, o estado de pureza.
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Tens agora o conhecimento a respeito dos dois Caminhos.
Chegará o momento em que terás de escolher, ó de Alma ansiosa, quando tiveres
chegado ao fim e passado as sete portas. A tua mente está lúcida. Já não
estás preso a pensamentos ilusórios, porque aprendeste tudo. Sem véu está
ante ti a Verdade, e fita-te gravemente. Diz ela:
“Doces são os frutos do descanso e da libertação por
causa da Personalidade; porém, mais doces ainda os frutos do dever longo e
amargo; sim, da renúncia por amor aos outros, aos homens que sofrem”.
Aquele que se converte em
Pratyeka-Buda só presta
obediência à sua Personalidade.
O Bodhisattva que ganhou a batalha, que tem o prêmio na
mão, mas exclama, na sua divina compaixão:
“Por amor aos outros abandono esta grande recompensa” -
realiza a renúncia maior.
Ele é um Salvador do Mundo.
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Repara! A meta da felicidade e o longo Caminho da dor estão
no extremo fim. Podes escolher um ou outro, ó aspirante à tristeza, através
dos ciclos que hão de vir!
Om vairapani hum
TERCEIRO
FRAGMENTO
AS SETE PORTAS
UPADHYA (96),
a escola está feita. Anseio pela sabedoria. Rasgaste já o véu que escondia
o caminho secreto e ensinaste o Yana (97)
superior. O teu servo aqui está, pronto para que o guies.
Está bem, Shravaka (98).
Prepara-te, porque terás de seguir sozinho, O mestre só pode apontar a
direção. O caminho é um para todos, o meio de chegar à meta deve variar de
peregrino para peregrino.
Qual é que vais escolher, ó de coração
indômito? O Samtan (99)
da doutrina dos olhos, o quádruplo Dhyana, ou abrirás caminho através das
Paramitas (100),
seis em número, nobres portas da virtude conduzindo a Bodhi e a Prajna, sétimo
passo da sabedoria?
O caminho árduo do quádruplo Dhyana ondula montanha acima.
Três vezes grande é aquele que chega ao píncaro altíssimo.
As alturas de Paramita são atravessadas por um caminho ainda
mais íngreme. Tens de forçar o teu caminho através de sete portas, sete
fortalezas guardadas por poderes cruéis e ardilosos - paixões encarnadas.
Anima-te, discípulo; tem sempre presente o preceito áureo.
Uma vez passada a porta Srotapatti (101) “aquele que entrou para o rio” cujo
pé foi posto sobre o leito do rio nirvânico nesta vida ou em qualquer vida
futura, tem apenas diante dele mais sete nascimentos, ó homem de vontade de
ferro.
Repara. Que vês tu diante dos teus olhos, ó aspirante à
sabedoria divina?
“O manto da escuridão cobre a profundeza da matéria;
nas suas dobras me debato. Aprofunda-se, Senhor, à medida que para ele olho; um
gesto da tua mão o desfaz. Mexe-se uma sombra, arrastando-se como as dobras coleantes da serpente... Cresce, alastra-se, e
desaparece na escuridão”.
É a sombra de ti próprio fora do Caminho, caindo sobre a
escuridão dos teus pecados.
“Sim, Senhor, vejo o Caminho; o seu princípio fincado no
lodo, o seu cimo perdido na nirvânica luz gloriosa: e agora vejo os portais
cada vez mais estreitos na estrada árdua e espinhosa para Jnana" (102).
Vês bem, Lanu. Esses portais levam o
aspirante a
atravessar o rio para a outra margem (103).
Cada portal tem uma chave de ouro que abre a sua porta; e essas chaves são:
1. Dana, a chave da caridade e do amor imortal.
2. Shila, a chave da harmonia nas
palavras e nos atos, a
chave que contrabalança a causa e o efeito, não deixando mais espaço à
ação cármica.
3. Kshanti, a paciência suave, que nada pode alterar.
4. Vairagya, a indiferença ao prazer e à dor, a ilusão
vencida, só a verdade vista.
5. Virya, a energia indômita que abre o seu caminho para a
verdade suprema, erguendo-se acima das mentiras terrenas.
6. Dhyana, cuja porta de ouro, uma vez aberta, leva o Naljor (104)
para o reino de Sat, o eterno, e para a sua contemplação sem fim.
7. Prajna, cuja chave faz de um homem um Deus, criando-o um
Bodhisattva, filho dos Dhyanis.
Tais são as chaves de ouro para esses portais.
Antes que te possas acercar do último, ó tecedor da tua
liberdade, tens de possuir estas Paramitas da perfeição - as virtudes
transcendentais em número de seis e dez - por esse longo caminho.
Porque, ó discípulo, antes que estivesses apto a encontrar
o teu Mestre frente a frente, o teu Senhor luz a luz, que foi que te disseram?
Antes que te possas acercar da porta mais próxima tens de
aprender a separar o teu corpo do teu espírito, e a viver no eterno. Para isto,
tens de viver e respirar em tudo, como tudo que vês respira em ti; sentir-te
existir em todas coisas, e todas as coisas em ti.
Não deixarás os teus sentidos fazer do teu espírito campo
para o seu recreio.
Não separarás o teu ser do Ser, e do resto, mas fundirás o
oceano na gota de água, e a gota de água no oceano.
Assim estarás em acordo com tudo quanto vive; ama os homens
como se eles fossem os teus condiscípulos, discípulos do mesmo Mestre,
filhos da mesma boa mãe.
Professores há muitos; a Alma-Mestra (105) é uma, Alaya, a Alma Universal. Vive nesse Mestre como o seu raio em ti. Vive
nos teus semelhantes como eles nela.
Antes que estejas no limiar do Caminho; antes que entres pela
primeira porta, tens de fundir os dois em um e sacrificar o pessoal à
Personalidade impessoal, e assim destruir o caminho entre as duas - Antahkarana (106).
Tens de estar pronto para responder a Dharma, a lei austera,
cuja voz te perguntará ao teu primeiro passo, ao teu passo inicial.
“Obedeceste a todas as regras, ó de altas esperanças?
“Puseste o teu coração e a tua mente de acordo com a
grande mente e o grande coração de toda a humanidade? Porque, como a voz
sonora do grande rio, na qual todos os sons têm o seu eco (107),
assim deve o coração daquele que queira entrar para o rio vibrar em resposta
a cada suspiro e a cada pensamento de tudo quanto vive e respira”.
Os discípulos podem ser comparados a cordas da vina que
produz eco nas almas; a humanidade, à sua caixa de ressonância; a mão que a
vibra, à respiração melodiosa da Grande Alma do Mundo. A corda que não vibra
ao toque o Mestre, em harmonia suave com todas as outras, quebra-se e é deitada
fora. Assim as mentes coletivas dos Lanu-Shravakas. Têm de ser afinadas para
vibrar de acordo com o espírito do Upadhya - uno com a Super-Alma - ou se
quebrará.
Assim fazem os irmãos da sombra - os assassinos das suas
Almas, a horrível seita dos Dad-Dugpa (108) .
Puseste o teu ser de acordo com a grande dor da humanidade,
ó candidato à luz?
Fizeste assim?... Podes entrar. Antes,
porém, que dês um
passo no duro caminho da tristeza, é bom que aprendas quais são os perigos
da estrada.
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Armado com a chave da caridade, do amor e da terna
misericórdia, podes estar tranqüilo ante a porta de Dana, a porta que fica à
entrada do Caminho.
Vê, ó ditoso peregrino! O portal que tens diante de ti é
alto e largo, parece de fácil acesso. A estrada que o atravessa é reta, suave
e relvada. É como uma clareira cheia de sol no meio da floresta escura e funda,
um lugar na terra refletindo o paraíso de Amitabha (109).
Ali rouxinóis de esperança e aves de penas radiosas cantam em bosques
verdejantes, trilando triunfos aos peregrinos sem receio. Cantam as cinco
virtudes do Bodhisattva, a fonte quíntupla do poder do Bodhi, e dos sete
degraus no conhecimento.
Passa, segue para diante!. Trouxeste a chave: estás salvo.
Para a segunda porta a entrada é verde também, mas é
íngreme e serpenteia montanha acima - sim, até ao cimo rochoso da montanha.
Névoas cinzentas cobrirão o seu píncaro rude e pedregoso, e para além será
tudo escuridão. À medida que avança, o cântico da esperança soa cada vez
mais débil no coração do peregrino. O arrepio da dúvida atinge-o; os seus
passos tornam-se mais incertos.
Acautela-te com isto, ó candidato;
acautela-te contra o
medo que, como as asas negras e silenciosas do morcego noturno, se alastra entre
o luar da tua Alma e a tua grande meta que surge na distância, muito longe
ainda.
O medo, ó discípulo, mata a vontade e demora a ação. Se
é falho da virtude Shila, o peregrino tropeça, e pedras cármicas ferem-lhe os
pés pelo caminho pedregoso.
Pisa com segurança, ó candidato. Banha a tua alma na
essência de Kshanti; porque te acercas agora do portal que tem esse nome, a
porta da fortaleza e da paciência.
Não feches os olhos, nem percas de vista Dorje (110);
as setas de Mara atingem sempre o homem que não chegou ao Vairagya (111).
Não tremas. Sob o hálito do medo
enferruja a chave de
Kshanti; a chave ferrugenta já não pode abrir.
Quanto mais avançares, mais e mais serão os perigos que
cercarão os teus passos. O caminho que segue para diante é iluminado por uma
chama - a luz da audácia ardendo no coração. Quanto mais ousares, mais
conseguirás. Quanto mais temeres, mais a luz esmorecerá - e só ela te
pode guiar. Porque como o último raio do sol no píncaro do alto monte é
seguido pela noite escura quando cessa, assim é a luz do coração. Quando se
apaga, uma sombra negra e ameaçadora cairá do teu coração sobre o Caminho,
e prenderá os teus pés pávidos no chão.
Acautela-te, discípulo, com essa sombra letal. Nenhuma luz
que brilhe do Espírito pode dispersar a escuridão da Alma inferior, a não ser
que todo o pensamento egoísta de lá tenha fugido, e que o peregrino diga: “Abdiquei
deste corpo que passa; destruí a causa; as sombras, meros efeitos, não podem
mais subsistir”. Porque teve lugar agora a última grande batalha, a guerra
final entre o ser superior e o inferior. Vê, o próprio campo da batalha se
engolfou na grande guerra, e deixou de existir.
Mas, uma vez passada a porta de Kshanti, está dado o
terceiro passo. O teu corpo é teu escravo. Prepara-te agora para a quarta
porta, a porta das tentações que enleiam o homem interior.
Antes que possas acercar-te dessa meta, antes que a tua mão
se erga para levantar o fecho da quarta porta, deves ter dominado todas as
alterações mentais em ti, e matado o exército das sensações-pensamentos
que, sutis e insidiosas, se introduzem, sem que tu queiras, no sacrário
luzente da Alma.
Se não queres que elas te matem, deves tornar inofensivas as
tuas criações, os filhos dos teus pensamentos, invisíveis, impalpáveis, que
enxameiam em torno à humanidade, prole e herdeiros do homem e das suas presas
terrestres. Tens de estudar o vácuo do aparentemente cheio, o cheio do
aparentemente vazio. Ó aspirante intemerato, olha bem para dentro do poço do
teu coração, e responde. Conheces bem os poderes da Personalidade, ó
observador das sombras externas?
Se os não conheces, está perdido.
Porque, no quarto caminho, a mais leve brisa da paixão ou do
desejo fará tremer a luz firme nos muros brancos e puros da Alma. A mais
pequena onda de ânsia ou de saudade pelos dons ilusórios de Maya, ao passares
por Antahkarana - o caminho que há entre o teu Espírito e a tua Personalidade,
a estrada-real das sensações, as despertadoras de Ahamkara (112)
- um pensamento
rápido como a luz do relâmpago far-te-á perder os teus três prêmios - os
três prêmios que ganhaste. Aprende que no Eterno não há mudança.
“Abandona para sempre as oito cruéis angústias; se
não, por certo que não chegaste à sabedoria, nem ainda à libertação”,
diz o grande Senhor, o Tathagata da perfeição, “aquele que seguiu as
passadas dos seus predecessores (113).
Austera e exigente é a virtude de
Vairagya. Se queres
possuir o seu caminho, tens de ter a tua mente, as tuas percepções mais do que
nunca livres da ação mortal.
Tens de te saturar do puro Alaya, de te identificar com o
pensamento da alma da Natureza. Unificado com ele és invencível; separado
dele, torna-te o campo de recreio de Samvritti (114),
origem de todas as ilusões do mundo.
Tudo é transitório no homem, salvo a pura e clara essência
do Alaya. O homem é o seu raio cristalino; por dentro um raio de luz imaculada, uma forma de barro material na
superfície inferior. Esse raio é
o teu guia de vida e a tua Personalidade verdadeira, a sentinela e o pensador
silencioso, a vítima do teu ser inferior. A tua Alma não pode ser ferida
senão através do teu corpo pecador; domina e rege os dois e estarás salvo
quando estiveres cruzando as proximidades da Porta do Equilíbrio.
Anima-te, audaz peregrino, para a outra margem. Não dês
ouvidos ao segredar das hostes de Mara; afasta os tentadores, esses espíritos
de má índole, os Lhamayn (115) no espaço infinito.
Mantém-te firme! Acerca-te agora do portal médio, da
porta da dor, com as suas dez mil armadilhas.
Domina os teus pensamentos, ó ansioso pela perfeição, se
queres atravessar o limiar dela.
Domina a tua alma, ó ansioso pelas
verdades eternas, se
queres chegar à meta.
Concentra o olhar da tua alma na luz única e pura, na luz
que nada afeta, e serve-te da tua chave de ouro.
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O árduo trabalho está feito, a tua tarefa quase finda. O
grande abismo, que se abria para te tragar, está quase passado.
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Atravessaste a vala que circula a porta das paixões humanas.
Venceste já a Mara e à sua horda furiosa.
Tiraste a impureza do teu coração e
sangraste-o de
desejos impuros. Mas, ó combatente glorioso, a tua tarefa ainda não está no
fim. Constrói alto, Lanu, o muro que há de defender a tua Ilha Sagrada (116),
o dique que protegerá o teu espírito do orgulho e do contentamento ao
pensares no teu grande feito.
Um sentimento de orgulho macularia a tua obra. Sim: ergue
forte o muro, não vá o impulso feroz das ondas em guerra, que sobem e batem na
sua costa, vindas do grande Mundo do oceano de Maya, engolfar o peregrino e a
ilha; - sim, no próprio momento da vitória.
A tua “ilha” é a corça, os teus pensamentos os galgos
que cansam e perseguem o seu avanço até ao rio da vida. Ai da corça que é
atingida pelos galgos malignos antes que chegue ao vale do refúgio - Jnana-Marga
(117),
“o caminho do puro conhecimento”.
Antes que te possas estabelecer em JnanaMarga e chamar-lhe
teu, a tua Alma tem de se tornar como o fruto maduro da mangueira: mole e doce
como a sua polpa dourada para as angústias dos outros, duro como o caroço
desse fruto para as tuas próprias dores e angústias, ó triunfador da
alegria e da tristeza.
Torna a tua Alma dura contra as
armadilhas da tua
personalidade; faze com que ela mereça o nome de Alma de Diamante.
Porque, como o diamante enterrado
fundo no coração vivo
da terra não pode refletir as luzes terrenas, assim são a tua mente e a tua
Alma; imersos no Jnana-Marga, nada devem refletir do meio ilusório de Maya.
Quando chegares a esse estado, os portais que tens de vencer
no teu caminho abrem de par em par as suas portas, para que passes e os poderes
maiores da natureza não têm força para te embargar o passo. Serás dono do
sétuplo caminho: mas só então o serás, ó candidato a provas
indizíveis.
Até ali, espera-te uma tarefa muito mais difícil: tens de
te sentir todo pensamento, e contudo exilar da tua alma todos os pensamentos.
Tens de chegar àquela fixidez de espírito em que nenhuma
brisa, por mais que cresça, pode soprar um pensamento material para dentro
dele. Assim purificado, o sacrário deve ficar vazio de toda a ação, som ou
luz da terra; assim como a borboleta, atingida pela geada, cai morta no limiar -
assim todos os pensamentos materiais devem cair mortos ante o tempo.
Vê que está escrito:
“Antes que a chama dourada possa arder com um brilho firme,
deve a lâmpada estar guardada num lugar livre de toda a aragem”. Exposta à
brisa volúvel, a chama tremerá, e, tremendo, lançará sombras enganosas,
negras, e sempre variantes, sobre o sacrário branco da Alma.
E então, ó perseguidor da verdade, a alma da tua mente
tornar-se-á como um elefante louco, que se enfurece na floresta. Tomando as
árvores por inimigos vivos, morre ao tentar matar as sombras sempre incertas
bailando no muro dos rochedos inundados de sol.
Acautela-te, não vá a tua alma, ao cuidar da tua
Personalidade, perder pé no terreno do conhecimento Deva.
Acautela-te, não vá a tua Alma, ao
esquecer a
Personalidade, perder o seu domínio sobre o seu espírito trêmulo, perdendo
assim o justo prêmio das suas conquistas.
Acautela-te contra a mudança, porque a mudança é o teu
grande inimigo. A mudança lutará contigo, afastar-te-á, atirar-te-á para
fora do caminho que trilhas, para dentro de pântanos viscosos de dúvida.
Prepara-te e acautela-te a tempo. Se
experimentaste e
falhaste, ó lutador indômito, não percas, porém, a coragem: continua a
lutar, e volta ao embate repetidamente.
O guerreiro destemido, ainda que o
sangue da sua vida lhe
escorra das feridas abertas, continuará a atacar o inimigo, expulsálo-á
do seu forte, vencê-lo-á mesmo, antes que ele próprio expire. Agi, pois,
todos vós que falhais e que sofreis, como esse soldado; e do forte da vossa
Alma expulsai todos os vossos inimigos - a ambição, a cólera, o ódio, até a
sombra do desejo - mesmo quando tiverdes falhado...
Lembra-te, tu que lutas pela libertação humana (118),
que cada falência é um triunfo, e cada tentativa sincera a seu tempo recebe o
seu prêmio. Os santos germes que brotam e crescem invisíveis na Alma do
discípulo, dobram como juncos mas não quebram, nem podem eles perder-se. Mas
quando a hora soa, desabrocham (119).
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Mas se vieste preparado, então não temas nada.
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Daqui em diante é claro o teu caminho, que vai direto à
porta de Virya, o quinto dos sete portais. Estás agora no caminho que conduz
ao porto do Dhyana, o sexto portal, o portal Bodhi.
A porta do Dhyana é como um vaso de alabastro, branco e
transparente; dentro dele arde uma luz firme e dourada, a chama de Prajna, que
de Atman irradia.
Esse vaso és tu.
Afasta-te dos objetos dos sentidos,
seguiste pelo caminho
da visão, pelo caminho da audição, e estás agora na luz do conhecimento.
Chegaste agora ao estado de Titiksha (120).
Ó Naljor, estás salvo.
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Aprende, vencedor dos pecados, que uma vez que um Sowani (121)
tenha atravessado o sétimo caminho, toda a natur |