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  • OS MESTRES

     ANNIE BESANT

     

    ÍNDICE

     INTRODUÇÃO

     O HOMEM PERFEITO

     HOMEM PERFEITO: UM ELO NA CORRENTE DA EVOLUÇÃO

     ORDENS EXTERNAS E INTERNAS

     A PRIMEIRA INICIAÇÃO

     A SEGUNDA INICIAÇÃO

     A TERCEIRA INICIAÇÃO

     A NOITE ESCURA DA ALMA

     A GLÓRIA DA PERFEIÇÃO

    O IDEAL INSPIRADOR

     OS MESTRES COMO FATOS E IDEAIS

     O TESTEMUNHO DAS RELIGIÕES

     UMA TEORIA

     EVIDÊNCIA HISTÓRICA

     EXPERIÊNCIA DIRETA

     COMO PODEMOS ENCONTRAR OS MESTRES?

     H. P. BLAVATSKY

     "A DOUTRINA SECRETA"

     'A VOZ DO SILÊNCIO

     CONHECIMENTO PESSOAL

     O CAMINHO À INICIAÇÃO

     REENCARNAÇÃO

     VIVER NOBREMENTE

     FRATERNIDADE

     A PERCEPÇÃO DA UNIDADE

     UM IDEAL SUBLIME

     OS INICIADOS

     QUEM É O MESTRE?

     O HOMEM PERFEITO, SEU LUGAR NA EVOLUÇÃO

     ONDE VIVEM?

     SEU TRABALHO

     

     INTRODUÇÃO

    A imagem dos Mestres, os Irmãos mais Velhos da Humanidade, sempre produz uma emoção à alma humana e quaisquer palavras a respeito deles são acolhidas com avidez e prazer. A idéia de haver qualquer coisa ilógica na concepção desses Seres notáveis, desses Homens aperfeiçoados, está praticamente extinta no Ocidente, como se nunca houvesse existido. Compreende-se, agora, que a existência de tais Seres é natural e que, dada a evolução, tais produtos superiores são uma necessidade natural. Muitos estão começando a encontrar nas grandes figuras do passado uma evidência de que tais Homens existem, e como o bom senso os reconhece no passado, cresce a esperança de encontrá-los no presente.

    Além disso, há cada vez mais pessoas entre nós, tanto no Oriente como no Ocidente, que conseguiram encontrar os Mestres; assim sendo, qualquer dúvida a respeito de sua existência foi para sempre dissipada de suas mentes. O Caminho até eles está aberto, e aqueles que procuram encontrarão.

     Que este livrinho possa estimular em alguns a busca por esses Mestres notáveis. Eu, que os conheço, não posso prestar serviço maior a meus irmãos do que incitá-los a iniciarem uma busca que lhes proporcionará uma recompensa indescritível.

     Annie Besant

     

    O HOMEM PERFEITO: UM ELO NA CORRENTE DA EVOLUÇÃO

    Há uma etapa, na evolução humana, imediatamente anterior à meta do esforço humano, que, uma vez atravessada, o homem, enquanto homem, não tem mais nada a realizar. Ele torna-se perfeito; sua carreira humana terminou. As grandes religiões dão nomes diferentes a esse Homem Perfeito, mas, qualquer que seja o nome, o conceito é o mesmo; Ele é Mitra, Osíris, Krishna, Buda ou Cristo, mas sempre simboliza o Homem que se tornou perfeito. Ele não pertence a uma única religião, nação ou família humana; não está limitado por um único credo; em todo lugar ele é o mais nobre, o mais perfeito ideal. Todas as religiões o proclamam; todos os credos têm nele sua justificação; ele é o ideal pelo qual se esforçam todas as crenças, e cada religião cumpre sua missão com maior ou menor eficiência, conforme a claridade com que ilumina e a precisão com que ensina o caminho pelo qual ele pode ser alcançado.

    O nome de Cristo, atribuído ao Homem Perfeito pelos Cristãos, designa mais um estado do que o nome de um homem. "Cristo em você, a esperança da glória", é o pensamento do mestre Cristão. Os homens, no longo percurso da evolução, atingem o estado de Cristo, pois todos concluem com o tempo a peregrinação secular, e aquele que especialmente no Ocidente está conectado a esse nome é um dos "Filhos de Deus", que atingiram o objetivo final da humanidade. A palavra sempre trouxe consigo a conotação de um estado: "o sagrado". Todos devem atingir esse estado: "Olhai dentro de ti; tu és Buda". "Até que o Cristo surja em ti".

    Assim como aquele que deseja tornar-se músico, deveria ouvir as obras-primas dessa arte e mergulhar nas melodias dos grandes mestres da música, deveríamos nós, filhos da humanidade, erguer nossos olhos e nossos corações, em contemplação constantemente renovada, para as montanhas onde habitam os Homens Perfeitos da nossa raça. O que nós- somos, eles já foram; o que eles são, nós seremos. Todos os filhos dos homens podem fazer o que um Filho do Homem já fez, e vemos neles a garantia do nosso próprio triunfo; o desenvolvimento de semelhante divindade em nós é apenas uma questão de evolução.

    ORDENS EXTERNAS E INTERNAS

    Algumas vezes tenho dividido a evolução interior em três estados: submoral, moral e supermoral; submoral, onde não é percebida a diferença entre o certo e o errado, e o homem atende aos seus desejos sem questionamentos, sem escrúpulos; moral, onde o certo e o errado são percebidos, tornando-se cada vez mais precisos e inclusivos, e esforça-se por obedecer às leis; supermoral, onde a lei externa é transcendida, pois a natureza divina dita suas próprias leis. No estado moral, a lei é reconhecida como uma barreira legítima, uma restrição salutar; "Faça isto"; "Evite aquilo"; o homem esforça-se por obedecer, havendo uma batalha constante entre as naturezas superior e inferior. No estado supermoral, a vida divina que há no homem encontra sua expressão natural sem orientação externa; ele ama, não porque deva amar mas porque ele é amor. Citando as nobres palavras de um Iniciado Cristão, ele age "não em obediência às leis mundanas, mas pelo poder de uma vida eterna". A moralidade é transcendida quando todos os poderes do homem voltam-se para o bem, assim como a agulha magnética volta-se para o Norte; quando a divindade do homem procura sempre o melhor para todos. Não há mais luta, pois a batalha está vencida; só após ter-se tornado o Cristo triunfante, o Mestre da vida e da morte, o Cristo terá atingido seu estado de perfeição.

    A PRIMEIRA INICIAÇÃO

    Através da primeira das grandes Iniciações penetra-se nesse estado de vida de Cristo, vida de Buda; nela o Iniciado é a "criancinha", às vezes o "bebê", às vezes a "criancinha de três anos". O homem deve "recobrar o estado de criança que ele perdeu"; deve "tornar-se uma criancinha" a fim de "penetrar no reinado divino". Atravessando esse portal, ele nasce na vida de Cristo e, trilhando o "caminho da Cruz", continua avançando pelas sucessivas passagens ao longo do Caminho; finalmente, liberta-se, em definitivo, da vida de limitações e da escravidão, morre para viver na eternidade, tomando consciência de si mesmo como vida em vez de forma.

    Não resta dúvida de que, no Cristianismo primitivo, essa etapa da evolução era definitivamente reconhecida como sendo uma etapa anterior a todos os indivíduos cristãos. A ansiedade expressada por São Paulo ao afirmar que Cristo poderia nascer em seus convertidos é prova suficiente desse fato, deixando de lado outras passagens que poderiam ser citadas. Mesmo que essa frase fosse a única, bastaria para demonstrar que, no ideal Cristão, o estado-Cristo era considerado como uma condição interior, a fase final da evolução de todo crente. Seria aconselhável que os Cristãos reconhecessem isso e não considerassem a vida do discípulo, que culmina no Homem Perfeito, como um espécime exótico cultivado no Ocidente e só considerado nativo das distantes terras do Oriente. Esse ideal faz parte de todo Cristianismo verdadeiro e espiritual, e o nascimento do Cristo em cada alma Cristã é o objetivo da doutrina Cristã. A mera finalidade da religião é a de provocar esse nascimento e, se por algum motivo, tal ensino místico fosse retirado do Cristianismo, essa fé não mais poderia elevar à divindade aqueles que a professam.

    A primeira das grandes Iniciações é o nascimento do Cristo, do Buda, na consciência humana, a transcendência da consciência-do-eu, a queda das limitações. fato conhecido por todos os estudantes a existência de quatro etapas de desenvolvimento, entre o homem inteiramente bom e o Mestre triunfante, que devem ser superadas para atingir-se o estado-Cristo. Principia-se cada uma delas por uma Iniciação e, através dessas etapas da evolução, a consciência deve expandir-se, crescer, atingindo os limites possíveis dentro das restrições impostas pelo corpo humano. Na primeira etapa, a mudança experimentada é o despertar da consciência no mundo espiritual, no qual ela se identifica com a vida, deixando de fazê-lo com as formas em que a vida possa estar, no momento, aprisionada. Esse despertar caracteriza-se por uma sensação de súbita expansão e de estar ultrapassando os limites habituais da vida, pelo reconhecimento de um Eu, divino e magnificente, que é vida e não forma, alegria e não tristeza; a sensação de uma paz maravilhosa, muito além de tudo aquilo que o mundo possa sonhar. Com a queda das limitações surge uma intensificação da vida, como se esta fluísse por todos os lados regozijando-se pelas barreiras removidas, uma sensação de realidade tão intensa que toda vida corporificada chega a parecer-se com a morte, e a luminosidade terrena, com a escuridão. É uma expansão tão maravilhosa em sua essência, que a consciência sente-se como se nunca antes tivesse conhecido a si mesma, pois tudo aquilo que observara conscientemente parece, na presença dessa vida transbordante, ter sido inconscientemente. A autoconsciência, que começou a germinar na infância, desenvolve-se, cresce e expande-se sempre dentro dos limites da forma, imaginando a si mesma como uma parte separada, sentindo sempre o "eu", falando sempre de "mim" e do "meu". Essa autoconsciência, subitamente, sente todos os eus como Eu e todas as formas como uma propriedade em comum. Percebe que as limitações eram necessárias para poder-se construir um núcleo de individualidade no qual a auto-identidade pudesse persistir, e, ao mesmo tempo, sente que a forma é apenas um instrumento que ela, a consciência viva, utiliza enquanto é uma só em meio a todas essas vidas. Conhece o verdadeiro significado da frase, freqüentemente citada, a "unidade da humanidade" e sente o que significa viver em todas essas vidas e movimentos; e essa consciência vem acompanhada por uma imensa alegria, a alegria da vida, que, mesmo em seus tímidos reflexos sobre a terra, é um dos mais intensos êxtases experimentados pelo homem. A unidade não é apenas percebida pelo intelecto, mas é sentida como satisfazendo o anelo de unidade conhecido por aqueles que já amaram; é um sentimento de unidade que vem de dentro, não podendo ser visto de fora. Não é uma concepção, mas uma vida.

    O nascimento do Cristo no homem foi retratado em muitos escritos do passado, sempre havendo harmonia entre eles. Todavia, embora todas as palavras se moldem ao mundo das formas, mostram-se insuficientes quando sobrepostas ao mundo da vida.

    Porém, a criança deve transformar-se no homem perfeito, e há muito a ser feito, muitos aborrecimentos a serem enfrentados, muito sofrimento a ser suportado, muitas batalhas a serem travadas e muitos obstáculos a serem vencidos, antes que o Cristo nascido na fraqueza da infância atinja o estado de Homem Perfeito. Terá que trabalhar entre seus irmãos, enfrentar o ridículo e a suspeita, ouvir mensagens de desprezo; haverá a agonia do abandono, a paixão da cruz e a escuridão da tumba. Tudo isto encontra-se diante dele no caminho iniciado.

    Através da prática constante, o discípulo deve aprender a assimilar a consciência dos outros e a centrar sua própria consciência na vida e não na forma, de modo que possa passar além da "heresia da separação" que o faz considerar os outros como diferentes dele próprio. Deve expandir sua consciência, treinando diariamente, até que seu estado normal seja aquele experimentado temporariamente durante sua primeira Iniciação. Para isso, ele se empenhará diariamente em identificar sua consciência com a daqueles com quem se relaciona no dia-a-dia; esforçar-se-á por sentir, pensar, alegrar-se e sofrer como eles. Gradualmente, deverá desenvolver uma simpatia perfeita, capaz de vibrar em harmonia com cada uma das cordas da lira humana. Paulatinamente, deverá aprender a responder às sensações dos outros como se fossem dele próprio, não importando qual a situação deles. Pouco a pouco, através de constante treino, deverá identificar-se com os outros nas mais variadas circunstâncias de suas diferentes vidas. Deverá aprender a lição da alegria e a lição das lágrimas, e isto só será possível quando tiver transcendido a divisão do eu, quando não mais precise pedir nada para si mesmo, mas apenas compreenda que, dali em diante, deverá viver na vida sozinho.

    Sua primeira grande batalha representa deixar de lado tudo aquilo que, até esse momento, tenha sido para ele a vida, a consciência e a realidade, e ir adiante sozinho, exposto, não mais identificando-se com nenhuma forma. Deve aprender a lei da vida, somente pela qual a divindade interior pode manifestar-se, a lei que é a antítese do seu passado. A lei da forma toma; a lei da vida dá. A vida cresce quando transborda da forma, nutrida pela inesgotável fonte de vida do centro do universo; quanto mais a vida transborda, maior a afluência interior. No início, poderá sentir-se, o jovem Cristo, como se toda sua vida o estivesse abandonando e como se suas mãos ficassem vazias após terem feito dádivas a um mundo ingrato; a vida eterna só poderá ser experimentada quando a natureza inferior tiver sido definitivamente sacrificada, e, somente então, aquilo que parecera a morte do ser será descoberto como o renascer numa vida mais plena.

    A SEGUNDA INICIAÇÃO

    Desta maneira, a consciência se desenvolve até completar a primeira etapa do caminho, onde o discípulo vê diante de si o segundo Portal da Iniciação, simbolizado nas Escrituras Cristãs pelo Batizado do Cristo. Assim, ao penetrar nas águas dos sofrimentos do mundo, nas quais todo Salvador de homens deve ser batizado, uma nova torrente de vida divina derrama-se sobre ele; sua consciência o identifica como o Filho em quem a vida do Pai encontra sua perfeita expressão. Sente a vida da Mônada, seu Pai Celeste, fluindo em sua consciência e compreende que é um, não somente com os homens mas _também com seu sagrado Pai, e que está na terra apenas para ser a expressão da vontade do Pai, seu organismo manifestado. Daqui em diante servir aos homens torna-se o objetivo de sua vida. Ele é o Filho a quem os homens deverão ouvir porque dele flui a vida oculta; e ele tornou-se um veículo através do qual essa vida oculta poderá alcançar o mundo exterior. Ele é o sacerdote do Deus do Mistério, que ergue o véu interior e surge com a glória a brilhar em seu rosto, reflexo da luz do santuário.

    É nesse momento que ele começa o trabalho de amor, simbolizado no sacerdócio externo pelo seu desejo de curar e ajudar. As almas amontoam-se ao seu redor à procura de luz e vida, atraídas por sua força interior e pela vida divina manifestadas no reconhecido Filho do Pai. Almas famintas vêm a ele, e ele lhes dá pão; almas perturbadas pelo pecado chegam, e ele as fortalece com sua palavra de vida; almas cegadas pela ignorância procuram-no, e ele as ilumina com a sabedoria. Um dos sinais que caracterizam um Cristo no seu ministério é que os abandonados e os pobres, assim como os desesperados e os degradados, aproximam-se dele sem a sensação de separação, sentindo uma simpatia que os acolhe em lugar de rejeitá-los, pois sua pessoa irradia benevolência e o amor compreensivo flui ao seu redor. Na verdade, eles não sabem tratar-se de um Cristo em evolução, mas sentem um poder que eleva e uma existência que vitaliza; nessa atmosfera, aspiram nova força e esperança.

    A TERCEIRA INICIAÇAO

    O terceiro Portal encontra-se diante dele e começa uma nova etapa de sua evolução, com um breve instante de paz, glória e iluminação, simbolizados nas Escrituras Cristãs pela Transfiguração. E uma pausa em sua vida, uma breve interrupção no exercício de sua função, uma viagem à Montanha sobre a qual paira a paz celestial, e lá - lado a lado com alguns que lhe reconheceram sua divindade evoluída - esta divindade resplandece, por um instante, em sua beleza transcendente. Durante esta trégua, ele pode ver seu futuro; uma seqüência de imagens desenrola-se diante de seus olhos antevendo-lhe o sofrimento, a solidão no Getsêmani e a agonia do Calvário. Desde então, seu rosto volta-se com determinação para Jerusalém e para a escuridão em que deverá penetrar por amor aos homens. Ele compreende que antes de atingir a perfeita realização da unidade, deverá experimentar a quinta-essência da solidão. Até agora, embora consciente de sua vida em desenvolvimento, ela parecia-lhe vir de fora; agora compreende que seu núcleo está dentro dele, que na solidão da alma deve experimentar a verdadeira unidade do Pai e do Filho, uma unidade interior e não exterior, e, em seguida, a perda inclusive do Rosto do Pai; para isso, deve ser suspenso todo contato externo com os homens e mesmo com Deus. Percebe que dentro do seu próprio espírito poderá encontrar o Um.

    A NOITE ESCURA DA ALMA

    Como o momento de escuridão se aproxima, ele se sente cada vez mais angustiado pelo malogro da simpatia humana, em que se habituara a confiar durante os últimos anos de vida e trabalho, e quando, na hora crucial de sua agonia, olha ao redor em busca de conforto, e vê seus amigos mostrarem-se indiferentes e distantes, parece-lhe que todos os laços humanos foram cortados, que todo amor humano é uma falsidade, toda a fé humana, uma traição; ele é atirado totalmente a si mesmo e descobre que o único laço remanecente é aquele que o une ao seu Pai Celestial e que toda ajuda corporificada é inútil. Diz-se que, nesse momento de solidão, a alma enche-se de amargura e que raramente uma alma atravessa sem um grito de angústia esse abismo de vacuidade; é então que aflora o reproche agonizante: "Não podias ter ficado do meu lado por um instante?" Mas, nesse desolado Getsêmani, nenhuma mão humana pode afagar uma outra.

    Uma vez superada a escuridão do abandono humano, apesar do recuo da natureza humana diante do cálice, sobrevém, então, a escuridão mais profunda do momento, em que parece abrir-se um abismo entre o Pai e o Filho, entre a vida corporificada e a vida eterna. O Pai, que já fora conhecido no Getsêmani, quando todos os seus amigos humanos estavam dormindo, agora, na paixão da Cruz, está oculto. É a mais amarga das provações do Iniciado, quando ele perde até mesmo a consciência de sua vida enquanto Filho, e o tão desejado triunfo transforma-se, nessa hora, na mais profunda ignomínia. Vê seus inimigos exultantes ao seu redor, sente-se abandonado por seus amigos e por aqueles que o amavam, sente o suporte divino despedaçar-se abaixo de seus pés e bebe a última gota do cálice da solidão, do isolamento. Nenhum contato com o homem ou com Deus preenche o vazio em que se encontra sua alma desamparada. Então, do âmago de seu ser, que se sente abandonado até mesmo pelo Pai, aflora a súplica: "Meu Deus! Meu Deus! Por quê me desamparaste?" Por que esta prova final, por que esta última experiência penosa, a mais cruel de todas as ilusões? Ilusão, sim, pois o Cristo agonizante está mais perto do que nunca do Coração Divino.

    Porque o Filho deve conhecer-se a si mesmo para poder ser um com o Pai que procura, deve encontrar Deus, não só dentro dele, mas como seu Eu mais íntimo; e só ao compreender que o Eterno é ele mesmo e que ele é o Eterno, estará além da possibilidade de sentir a separação. Só e somente então poderá ajudar os seus com perfeição e se tornar uma parte consciente da energia em desenvolvimento.

    A GLORIA DA PERFEIÇAO

    O Cristo triunfante, o Cristo da Ressurreição e da Ascensão, sentiu a amargura da morte, conheceu todo o sofrimento humano e ergueu-se acima dele pelo poder da sua própria divindade. Que é que pode agora perturbar a sua paz ou impedir sua mão de estender-se oferecendo ajuda? Durante sua evolução aprendeu a tornar-se receptivo aos problemas humanos e a convertê-los em paz e alegria. Este era o seu trabalho naquela etapa, o de transformar as forças de discórdia em forças de harmonia. Agora deve fazê-lo pelo mundo, pela humanidade da qual floresceu. Assim, os Cristos e seus discípulos, cada um na medida da sua evolução, protegem e ajudam o mundo e, não fosse pela sua presença, cujas mãos sustentam "o pesado karma do mundo", muito mais amargas seriam as lutas e mais violentos os combates da humanidade.

    Mesmo aqueles que se encontram na fase inicial do Caminho elevam-se durante a evolução, assim como todos aqueles que trabalham desinteressadamente pelos outros, embora estes o façam contínua e intencionalmente. Porém, o Cristo triunfante faz perfeitamente o que os outros fazem nas diferentes etapas de imperfeição e, por este motivo, é chamado de "Salvador", sendo que esta qualidade é perfeita nele. Ele salva compartilhando sua vida conosco e não colocando-se em nosso lugar. Ele é sábio e transmite sua sabedoria aos homens, pois sua vida flui nas veias e palpita nos corações de todos os homens. Não está preso a uma forma, mas também não está separado dela. Ele é o Homem Ideal, o Homem Perfeito; cada ser humano é uma célula do seu corpo e cada célula é nutrida por sua vida.

    Certamente, não teria valido a pena o sofrimento na Cruz e o Caminho trilhado até chegar a ela, apenas para conseguir sua própria libertação um pouco antes, ou para poder descansar um pouco mais cedo. O lucro teria sido muito pequeno para um custo tão alto e a luta amarga demais para semelhante recompensa. Todavia, o seu triunfo eleva a humanidade e o caminho percorrido por todos torna-se um pouco mais curto. A evolução de toda a raça se acelera; a peregrinação de cada um encurta-se mais ainda. Foi este o ideal que o inspirou durante a violência da luta, que manteve sua força e que aliviou a angústia provocada pelas perdas. Não há um só ser, não importa quão fraco, degradado, ignorante ou pecaminoso ele seja, que não tenha chegado um pouco mais perto da luz, quando o Filho do Supremo completou seu trajeto. Como se acelerará a marcha da evolução à medida que, cada vez mais, estes Filhos surjam triunfantes penetrando na eterna vida consciente!  Quão velozmente girará a roda que transporta o homem à divindade, no momento em que mais e mais homens tornarem-se conscientemente divinos.

    O IDEAL INSPIRADOR

    Nisso repousa o estímulo para cada um de nós que já tenha sentido, nos momentos mais nobres, a atração da vida que mana do amor aos homens. Pensemos nos sofrimentos do mundo, que não sabe porque sofre; na angústia e no desespero dos homens que não conhecem o porquê de suas vidas e de suas mortes; naqueles que, dia após dia, ano após ano, sentem o sofrimento caindo sobre eles mesmos e sobre os outros, sem poder compreender o motivo; naqueles que lutam com temeridade ou que, irados, se revoltam contra situações que não podem compreender ou justificar. Pensemos na agonia originada pela cegueira, na escuridão em que tateiam, sem esperança, sem aspiração e sem conhecimento da vida verdadeira e da beleza existentes do outro lado do véu. Pensemos nos milhões de irmãos nossos que estão na escuridão, e depois pensemos no engrandecimento de nossas energias, originado por nossos sofrimentos, lutas e sacrifícios. Podemos aproximá-los um pouco da luz, mitigar suas dores, reduzir sua ignorância, abreviar sua viagem com destino ao conhecimento, que é luz e vida. Quem de nós que saiba pelo menos um pouco, não haverá de dedicar-se a estes que não sabem nada?

    Sabemos, pela Lei imutável, pela Verdade inalterável e pela Vida e Deus eternos, que a divindade está dentro de nós e que, embora esteja pouco evoluída no momento, tudo nela é de uma infinita capacidade, disponível para o enaltecimento do mundo. Sem dúvida, não haverá, então, ninguém capaz de sentir a pulsação da Vida Divina, que não se sinta atraído pelo desejo de ajudar e glorificar. E se esta vida for sentida, mesmo que debilmente ou por um breve instante, é porque existe no coração a primeira vibração daquilo que se revelará como a vida de Cristo, porque está chegando a hora do nascimento do pequeno Cristo, porque a humanidade espera por ele para florescer.

    OS MESTRES COMO FATOS E IDEAIS[1]

    O TESTEMUNHO DAS RELIGIÕES

    "Os Mestres como Fatos e Ideais". Coloquei este título duplo pois há quem não Os reconhece como fatos, embora considere o ideal valioso, precioso e inspirador. Nem todos os membros da Sociedade Teosófica acreditam na existência de Mahatmas. Há muitos dentro da Sociedade que não possuem conhecimento ou convicção sobre esse assunto. E norma em nossa Sociedade que nenhuma declaração de fé será exigida àqueles que nela ingressam, salvo a fé na fraternidade entre os homens, sem as diferenças superficialmente estabelecidas. Por isso dentro da Sociedade podem encontrar-se tanto aqueles que acreditam na existência, seja no presente ou no passado, destes grandes Mestres, como aqueles que não acreditam. Todavia, eu, que acredito neles e sei que existem, não estou falando aqui em nome da Sociedade, que não tem credo, mas em meu nome e no daqueles que compartilham esta crença ou conhecimento comigo, e vou expor-lhes o que considero uma prova racional, digna de atenção, sobre a qual vocês poderão meditar nos momentos de lazer e chegar à conclusão que desejarem. Falo, também, em nome do ideal, pois os ideais da raça são preciosos e não podem ser levianamente ultrajados ou negados. O ideal do Mahatma é grandioso, a despeito dos risos fúteis provocados pelo nome que, simplesmente, significa Grande Espírito, em sânscrito.

    Não foi uma única religião que despertou e elevou as mentes dos homens, não foi uma única fé poderosa que conduziu milhões de pessoas ao conhecimento da vida espiritual e das possibilidades do crescimento humano; tampouco houve alguma que não tenha fundamentado essa crença num Homem Divino e que não se recorde de pelo menos uma dessas Almas poderosas, que trouxeram ao mundo o conhecimento da verdade espiritual, reconhecendo-a como seu Fundador. Seja qual for a maneira pela qual se recordem do passado e seja qual for a crença que adotarem, uma coisa é certa, todas elas estão baseadas nesse mesmo ideal, e procuram o Mestre num Homem que, em vida, foi divino. Em volta desse ideal reúnem-se todas as esperanças dos homens e o destino da humanidade. Pois, se não fosse o homem um Ser espiritual, se não houvesse dentro dele a possibilidade da expansão espiritual, se não houvesse provas disponíveis de que outros homens se tornaram perfeitos e de que não se trata apenas de um sonho do futuro, mas uma realidade que a raça humana já realizou; e se não fosse verdade que, tanto para vocês como para mim, existem as mesmas grandes possibilidades que, no passado, mostraram-se realizáveis por aqueles que as concluíram com êxito, então as esperanças dos homens não teriam fundamento, suas aspirações à perfeição não teriam a certeza de concretizar-se e a humanidade nada seria além duma coisa do presente, em lugar de ser a herdeira de uma imortalidade infinita. A crença de que o homem pode tornar-se divino tem inspirado os maiores de nossa raça, encorajado os atormentados em sua agonia e glorificado o futuro com a esperança.  É por tudo isto que eu defendo o ideal, pois quem é o Mahatma? Ele é o homem que se tornou perfeito, o homem que alcançou a união com o Divino, o homem que, lentamente, através dos diferentes estágios, desenvolveu as possibilidades da natureza espiritual, e hoje mantém-se vitorioso na arena onde nos encontramos em luta. Todas as religiões o testemunharam. Todas as religiões do mundo lembram-se dum Mestre Divino. Poderão ouvir o nome Zoroastro na Pérsia, Krishna na Índia e mais recentemente Buda, ou Cristo na Palestina, cada um deles é o Homem Divino que trouxe a certeza da perfeição humana àqueles que se encontram dentro do âmbito de Sua influência.

    UMA TEORIA

    Qual será a linha de nossa evidência? Sugiro, em primeiro lugar, uma teoria provável, baseada nas linhas da evolução natural. Em seguida, proponho voltar à prova da existência, no passado, destes Homens Divinos que se tornaram perfeitos e, a partir daí, chegar à prova de sua existência no presente; depois, demonstrar que é possível aos homens tornar-se perfeitos (pois, sem esta última parte, a dissertação seria impraticável para nós), resumindo, ao menos, os métodos pelos quais o Homem Divino tornou-se tal.

    Em primeiro lugar, então, vamos à teoria de que a existência dos Mestres é por si mesma provável e está de acordo com a analogia da natureza, assim como a vemos à nossa volta ou como a reconhecemos no passado. Somente uma minoria, provavelmente, contestará hoje a realidade da evolução. Poucos negarão que a nossa raça progride e que, ciclo após ciclo, as nações avançam atingindo um conhecimento cada vez maior, crescendo e desenvolvendo-se cada vez mais. Considerando o extenso período decorrido desde que o homem colocou os pés na terra pela primeira vez, as enormes diferenças que há entre primitivos e superdesenvolvidos e o vasto espaço de tempo transcorrido durante a evolução, não podemos, do ponto de vista teórico, julgar impossível ou absurda a teoria que sustenta que a evolução tenha atingido, no caso de certos indivíduos, um ponto muito acima daquele do homem civilizado de nossos dias.

    E isto não é tudo. Não só temos enormes espaços de tempo atrás de nós mas, também, há vestígios de civilizações poderosas que provam ter a raça" humana atingido alto grau de conhecimento e de desenvolvimento filosófico, científico e religioso, há milhares de anos. Ou, para ser mais precisa, há centenas de milhares de anos. Olhando retrospectivamente podem-se ver vestígios de civilizações poderosas que sugerem a presença de homens de uma espécie altamente evoluída e, provavelmente, seja irracional supor que a tão falada evolução não seja nada além dum simples progresso e declínio que nada deixa como resultado, a não ser alguns períodos prósperos de civilizações superiores e depois outros de absoluto barbarismo, e novamente o recomeço da civilização, sem elos que preservem a continuidade do conhecimento. Por isso, não é pelo menos impossível, e daqui a pouco veremos indícios de que é provável, que alguns nesse poderoso passado, tenham-se desenvolvido, elevando-se cada vez mais e aperfeiçoando a raça humana individualmente, até que lentamente, um de cada vez, todos fossem tornando-se perfeitos. Não é impossível, e nem ao menos improvável, se nos lembrarmos de que o progresso é a lei da natureza e do vasto espaço de tempo durante o qual a humanidade tem vivido.

    EVIDÊNCIA HISTÓRICA

    Mas a partir desta possibilidade, que eu apresento por considerar que é bom excluir, desde o começo, a idéia de que a teoria é, em si mesma, . impossível e absurda, tomemos agora a evidência histórica e vejamos se na história não aparecem de vez em quando algumas grandiosas figuras humanas que se destacam dos homens do seu tempo e do nível normal da humanidade; vejamos se não há alguma evidência, que não possa ser negada, de que tais Homens não são meros produtos da imaginação popular, nem apenas homens do passado cujos feitos foram exagerados e engrandecidos pela tradição popular, como aconteceu ao longo de séculos de confusão. Estou falando daqueles Grandes Seres, a quem já me referi, que foram os Fundadores das grandes religiões do mundo.


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