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  • A MÔNADA

    C. W. Leadbeater

    Publicado originalmente em The Theosophist, 1913

    A informação dada na literatura Teosófica sobre o tema da Mônada é necessariamente escassa. Não estamos presentemente em posição de suplementá-la em grande extensão; mas uma referência ao assunto, até onde ele é compreendido hoje em dia entre nós, pode poupar o estudante de alguns mal-entendidos, tais como os que são com freqüência manifestos nas questões que nos são enviadas.

    Que muitos mal-entendidos devam existir em tal assunto é algo inevitável, porque estamos tentando entender com o cérebro físico o que não pode de nenhum modo ser expresso em termos inteligíveis a este cérebro. A Mônada habita o segundo plano de nosso conjunto de planos - aquele que costumamos às vezes chamar de paranirvânico ou anupadaka. Não é fácil associar na mente qualquer significado definitivo ao termo plano ou mundo em uma altitude como essa, porque qualquer tentativa mesmo para simbolizar a relação dos planos e mundos entre si demanda um estupendo esforço de imaginação em uma direção em que estamos completamente desfamiliarizados.

    Tentemos imaginar o que a consciência do Divino deva ser - a consciência da Deidade Solar completamente fora de quaisquer mundos ou planos ou níveis que jamais possamos conceber. Nós podemos apenas pensar vagamente em algum tipo de Consciência transcendente para a qual o espaço já não existe, para a qual todas as coisas (pelo menos no Sistema Solar) estão simultaneamente presentes, não só em sua condição atual, mas em cada estágio de sua evolução desde o início até o final. Devemos pensar nessa Consciência como criando para Seu uso estes mundos a partir de vários tipos de matéria, e então devemos pensar nessa Consciência Divina voluntariamente velando a Si mesma dentro dessa matéria, e portanto limitando-Se enormemente. Ao tomar sobre Si mesma uma vestimenta da matéria seja do mais elevado destes mundos, Ela obviamente já terá imposto sobre Si mesma uma certa limitação; e, igualmente claro, cada vestimenta adicional que é tomada ao envolver-Se mais e mais profundamente na matéria, deve aumentar a limitação.

    Um modo de tentar simbolizar que tem-se revelado útil é tentarmos pensar nela em conexão com o que chamamos de dimensões do espaço. Se pudermos supor um número infinito dessas dimensões, pode ser sugerido que cada descida de um nível superior para um nível inferior remove da consciência uma dessas dimensões, até que, quando alcançamos o plano ou mundo mental, terá restado para nós apenas o poder de observar cinco delas. A descida ao plano astral retira mais uma, e a ulterior descida ao nível físico nos deixa com as três a que estamos acostumados. A fim de captarmos ao menos uma idéia do que representa essa perda de dimensões adicionais, temos de supor a existência de uma criatura cujos sentidos sejam capazes de compreender apenas duas dimensões, então imaginar no que a consciência desta criatura diferiria da nossa, e assim tentarmos ter uma idéia do que significaria perder uma dimensão de nossa consciência. Tal exercício de imaginação rapidamente nos convencerá de que a criatura bidimensional jamais poderia obter uma adequada compreensão de nossa vida; ela poderia ser consciente dela apenas em partes, e sua idéia mesmo destas partes seria inteiramente enganosa. Isso nos possibilita ver o quão inadequada deve ser nossa concepção mesmo do plano ou mundo imediatamente acima de nós; e compreenderíamos imediatamente a desesperança em pretender pleno entendimento da Mônada, que está separada por muitos desses planos ou mundos acima do ponto de onde estamos tentando considerá-la.

    Pode nos ajudar se evocarmos em nossas mentes o método pelo qual a Deidade originalmente construiu esses planos. Falamos com toda a reverência a respeito de Seu método, percebendo plenamente que podemos no máximo compreender só o mais diminuto fragmento de Seu trabalho, e que mesmo este fragmento é visto por nós de baixo, enquanto Ela o vê de cima. Assim, justifica-se dizermos que Ela envia de Si mesma uma onda de poder de influência de algum tipo, que molda a matéria primitiva pré-existente em certas formas às quais damos o nome de átomos.

    A este plano ou nível, assim construído, chega uma segunda onda vital de divina energia, e para ela aqueles átomos já existentes são objetivos, estão fora de si mesma, e ela os modela em formas nas quais habita. Enquanto isso a primeira onda descendente chega novamente, penetrando através daquele plano ou nível recém-formado, e constrói pois um novo plano, inferior, com átomos um pouco maiores e matéria deste modo um pouco mais densa - mesmo que sua densidade ainda possa ser de longe mais sutil que nossa mais diáfana concepção de matéria. Então nesse segundo mundo chega a segunda onda, e também nele encontra matéria que para ela é objetiva, e dela constrói suas formas. E assim o processo é repetido e a matéria torna-se cada vez mais e mais densa em cada mundo, até que finalmente chegamos a este nível físico; mas será útil mantermos em mente que em cada um desses níveis a animadora vida da segunda emanação encontra matéria já vivificada pela primeira emanação, que ela considera como objetiva, e da qual constrói as formas em que habita.

    Este processo de animação das formas construídas de matéria já vivificada é continuado através dos reinos mineral, vegetal e animal, mas quando chegamos ao momento da individualização que separa a mais elevada manifestação animal da mais baixa humana, uma curiosa alteração tem lugar; aquilo que até então tinha sido a vida animadora se torna por sua vez ela própria animada, pois ela modela a si própria numa forma na qual o Ego entra, e da qual toma posse. Ele absorve em si todas as experiências que a matéria de seu corpo causal tenha tido, de modo que nada absolutamente é perdido, e ele as carrega consigo através das eras de sua existência. Ele continua o processo de formação de corpos nos planos inferiores a partir do material animado pela primeira emanação do Terceiro Aspecto da Deidade; mas finalmente ele chega a um estágio na evolução no qual o corpo causal é o mais inferior dos quais necessita, e quando isso acontece vemos o espetáculo da Mônada, que representa a terceira emanação do Primeiro Aspecto da Deidade, habitando um corpo composto de matéria animada pela segunda emanação.

    Num estágio ainda mais tardio o acontecimento anterior se repete uma vez mais, e o Ego, que havia animado tantas formas durante o período de uma cadeia inteira, se torna ele mesmo o veículo, e é animado por sua vez pela Mônada agora plenamente ativa e desperta. E aqui, como antes, nada jamais é perdido na economia da natureza. Todas as múltiplas experiências do Ego, todas as esplêndidas qualidades desenvolvidas em si, tudo isso passa à própria Mônada e acham nela uma realização imensamente mais vasta do que mesmo o Ego lhes poderia ter dado. Sobre a condição de consciência da Deidade Solar fora dos planos de Seu sistema, não podemos formar nenhuma concepção real. Ela tem sido referida como o Fogo Divino; e se por um momento adotarmos este venerando simbolismo, podemos imaginar que Centelhas daquele Fogo caem na matéria de nossos planos - Centelhas que são da essência daquele Fogo, mas que por algum tempo aparentam estar separadas dele. A analogia não pode ser levada muito além, porque todas as centelhas das quais nada sabemos são lançadas fora daquele fogo originário e gradualmente se apagam e morrem; enquanto estas Centelhas por uma lenta evolução se desenvolvem em Chamas, e retornam ao Fogo Pai. Este desenvolvimento e este retorno aparentemente são os objetivos pelos quais as Centelhas emanam, e o processo de desenvolvimento é este que agora estamos tentando entender.

    Parece que a Centelha como tal não pode em sua inteireza velar-se além de certa medida; ela não pode descer além do que chamamos segundo plano, e continuar preservando sua unidade. Uma dificuldade com que somos confrontados na tentativa de formarmos quaisquer idéias sobre esse assunto é que, até agora, nenhum de nós que investigamos é capaz de alçar sua consciência até este segundo plano; na nomenclatura recentemente adotada lhe damos o nome de Monádico porque é a morada da Mônada; mas nenhum de nós já foi capaz de perceber aquela Mônada em sua própria morada, mas somente de vê-la quando desceu um estágio para o plano ou nível ou mundo abaixo do seu próprio, no qual ela se manifesta como o Espírito trino, que em nossos primeiros livros chamamos de o Atma no homem. Mesmo assim ela é incompreensível, pois têm três aspectos que são muito distintos e aparentemente separados, mesmo sendo fundamentalmente uma e a mesma.

    Tem sido descrito em outros livros como um destes três aspectos (ou seria mais acertado dizer a Mônada em seu primeiro aspecto) não pode descer ou não desce abaixo daquele nível espiritual; enquanto que em seu segundo aspecto realmente desce na matéria do mundo imediatamente abaixo (o intuicional), e quando este aspecto rodeou-se de matéria daquele nível o chamamos de divina sabedoria no homem, ou intuição. Enquanto isso, o terceiro aspecto (ou antes a Mônada em seu terceiro aspecto) desce também àquele plano intuicional e se reveste de sua matéria, e adota uma forma à qual ainda não foi atribuído nenhum nome em nossa literatura; mas ele também se move para adiante ou para baixo um estágio mais, e se reveste da matéria do mundo mental superior, e então o conhecemos como intelecto no homem. Quando esta manifestação tríplice nos três níveis assim tiver se desenvolvido, e manifestar-se como Espírito, intuição e intelecto, nós lhe damos o nome de Ego, e este Ego toma sobre si mesmo um veículo construído de matéria do mais alto plano mental, ao qual damos o nome de corpo causal. Este Ego assim funcionando em seu corpo causal tem sido freqüentemente chamado em nossa literatura anterior de Eu Superior, e às vezes de Alma.

    Nós vemos o Ego então como uma manifestação da Mônada no plano mental superior; mas devemos entender que ele está infinitamente longe de ser uma manifestação perfeita. Cada descida de plano para plano representa muito mais que uma mera veladura do Espírito; significa além disso uma verdadeira diminuição na proporção de Espírito que é expressa. Usar termos denotando quantidade ao falarmos desses assuntos é inteiramente incorreto e ilusório; mesmo se uma tentativa for feita de expressar estes elevados assuntos em palavras humanas, estas incongruências de qualquer modo não podem ser inteiramente evitadas; e o mais perto a que podemos chegar, no cérebro físico, de uma concepção do que acontece quando a Mônada envolve a si mesma na matéria do plano espiritual, é dizer que somente parte dela possivelmente será vista lá, e que mesmo esta parte deve ser percebida sob três aspectos distintos, em vez da gloriosa totalidade que ela é realmente em seu próprio mundo. Assim quando o segundo aspecto do Espírito tríplice desce um estágio e se manifesta como intuição, não é a inteireza daquele aspecto que ela assim manifesta, mas só uma fração dele. E desse modo quando o terceiro aspecto desce dois planos e se manifesta como intelecto, é apenas uma fração de uma fração do que o aspecto intelecto da Mônada realmente é. Portanto o Ego não é uma manifestação velada da Mônada, mas uma representação velada de uma diminuta parcela da Mônada.

    Como acima, assim embaixo. Como o Ego está para a Mônada, assim a personalidade está para o Ego. Assim, pela altura em que tivermos chegado na personalidade com a qual temos de lidar no mundo físico, o fracionamento já avançou tanto que a parte que somos capazes de ver não guarda nenhuma proporção apreciável em relação à realidade que ela tão inadequadamente representa. Pois é deste e com este fragmento ridiculamente inadequado que nós estamos tentando compreender o todo! Nossa dificuldade em tentarmos entender a Mônada é a mesma em espécie, mas muito maior em grau, do que aquela que encontramos quando tentamos realmente captar a idéia do Ego. Nos primeiros anos da Sociedade Teosófica houve muitas discussões sobre as relações entre o eu inferior e o Eu Superior. Naqueles dias não entendíamos a doutrina tão bem como a entendemos agora; não tínhamos a noção dela que prolongados estudos nos deram. Estou falando de um grupo de estudantes na Europa, que tinham atrás de si as tradições Cristãs, e as vagas idéias que o Cristianismo associa à palavra 'alma'.

    O Cristão comum de maneira alguma se identifica com sua 'alma', mas a considera como algo ligado a si de algum modo indefinido - algo por cuja salvação ele é responsável. Talvez nenhum homem comum dentre os devotos desta religião associe qualquer idéia definida à palavra, mas provavelmente a descreverá como sendo a parte imortal de si mesmo, ainda que em linguagem vulgar ele fale dela como se fosse uma possessão sua, como algo separado de si. No Magnificat, a Bendita Virgem diz: 'Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito jubilou em Deus meu Salvador'. Ela pode aqui estar fazendo uma distinção entre a alma e o espírito, como o faz São Paulo; mas ela fala deles ambos como posses, e não como o Eu. Ela não diz: 'Eu como alma engrandeço; Eu como espírito rejubilo'. Isto pode ser meramente uma questão de linguagem; seguramente mesmo assim esta pobre linguagem expressa uma idéia inexata e mal definida. Esta idéia estava no ar toda à nossa volta na Europa, e sem dúvida fomos influenciados por ela, e de início em alguma medida nós substituímos o termo 'Eu Superior' por 'Alma'.

    Então usamos expressões como 'buscando o Eu Superior', 'ouvindo os apelos do Eu Superior', e assim por diante. Eu lembro que o Sr. Sinnett costumava algumas vezes falar um tanto irreverentemente do Eu Superior, observando que ele deveria ter mais interesse do que o que ele parecia ter pela desafortunada personalidade lutando em seu nome aqui em baixo; e ele costumava ironicamente sugerir a formação de uma sociedade para a educação de nossos Eus Superiores. Foi somente com vagar que nós crescemos no sentimento de que o Eu Superior era o homem, e que o que vemos aqui embaixo é somente uma parte muito pequena dele. Só pouco a pouco nós aprendemos que só há uma consciência, e que a inferior, ainda que imperfeita representação da superior, não está de modo algum separada dela. Nós costumávamos pensar em 'nos' elevarmos até que pudéssemos 'nos' unir com aquele glorificado ser superior, não percebendo que o Eu Superior era o verdadeiro Eu, e que unir o superior ao inferior realmente significa abrir o inferior para que o superior possa trabalhar nele e através dele.

    Leva tempo para tornarmo-nos integralmente permeados pelas idéias Teosóficas. Não é meramente a leitura dos livros, não é meramente mesmo um estudo árduo, que nos faz Teosofistas; devemos dar tempo para que o ensino se torne parte de nós. Podemos verificar isso constantemente no caso de novos membros. Pessoas se juntam a nós, pessoas de fina inteligência, pessoas da mais profunda devoção, verdadeiramente ansiosas por fazer o melhor que puderem pela Teosofia, e de assimilá-la tão rápida e perfeitamente quanto possível; e mesmo com tudo isso, e com todo o seu ávido estudo de nossos livros, não conseguem imediatamente colocar-se na posição dos membros mais velhos; e às vezes demonstram isso, fazendo alguma crua observação de que de modo algum se harmoniza com o ensino Teosófico. Não estou sugerindo que o mero transcurso do tempo produza esses efeitos, pois obviamente um homem que não estuda pode permanecer um membro por vinte anos e ao final deste período estar apenas pouco mais adiantado do que estava no início; mas alguém que pacientemente estuda, alguém que convive muito com aqueles que conhecem, entra rápido no espírito da Teosofia - ou talvez possa melhor ser dito que o espírito da Teosofia entra nele.

    Evidentemente, portanto, os novos membros jamais deveriam interromper seus estudos, mas deveriam tentar entender as doutrinas sob todos os pontos de vista. Ano após ano estamos todos crescendo em direção à atitude daqueles que são mais velhos que nós, e isso vem principalmente pela associação e conversação com aqueles estudantes mais velhos. Os Mestres sabem quase infinitamente mais do que o mais avançado de Seus discípulos, e assim aqueles discípulos mais avançados continuam a aprender por sua associação com Eles; nós que somos discípulos muito menores do que aqueles que estão acima, do mesmo modo por nossa vez aprendemos pela associação com eles; e do mesmo jeito aqueles que não estão sequer em nosso nível podem aprender algo de uma associação semelhante conosco. Assim sempre os membros mais velhos podem ajudar os mais novos, e os mais novos têm muito o que aprender daqueles que já trilharam a estrada antes deles. Foi desse modo gradativo que vimos a entender algo sobre o Eu Superior e o eu inferior.

    Se tentarmos expressar a relação da personalidade com o Ego, podemos colocá-la melhor dizendo que a primeira é um fragmento do segundo, uma pequenina parte dele se expressando sob sérias dificuldades. Encontramos uma pessoa no plano físico; falamos com ela; e pensamos e dizemos que a conhecemos. Estaria um pouco mais próximo da verdade se disséssemos que conhecemos uma milésima parte dela. Mesmo quando a clarividência é desenvolvida - mesmo quando um homem desenvolve a visão de seu corpo causal, e olha para o corpo causal de outro homem - mesmo então, ainda que contemple uma manifestação do Ego em seu próprio plano, ele ainda está longe de ver o homem real. Eu tentei, por meio das ilustrações em O Homem Visível e Invisível, dar algumas indicações de um lado do aspecto destes veículos superiores; mas as ilustrações são na verdade muitíssimo inadequadas; elas podem dar somente pálidos esboços da coisa real. Quando algum de nossos leitores desenvolver a visão astral, poderá com razão nos dizer, como a Rainha de Sabá disse ao Rei Salomão: 'Sequer a metade me foi contada'. Ele pode dizer: 'Aqui está toda esta glória e esta beleza, que me cerca em todas as direções e parece inteiramente natural; deveria ser fácil dar uma melhor descrição disso'. Mas quando, tendo visto e experimentado tudo isso, ele retornar ao seu corpo físico e o tentar descrever em palavras físicas, acho que encontrará as mesmas dificuldades que temos encontrado.


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