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  • Mensagem 167
    De: "Jeronimo"
    Data: Ter Jan 30, 2001 6:27 pm
    Assunto: O espelho do Tempo


    O Espelho do Tempo



    Irmãos e amigos participantes desta lista, achei este texto interessante para reflexão e estudo, depois da bronca da Vaca Louca (hehehe) espero desta feita venha agradar.....espero que gostem!.

    O Espelho do Tempo Representação Sígnica & Imaginação Simbólica

    Marcelo Bolshaw Gomes (UFRN)

    Em PreTextos desde 22/04/1997

    A Porta do Imaginário

    'Espelho, espelho meu, existe algum intelectual mais sabido do que eu?' Num primeiro nível, a reflexão sobre o espelho será sempre um questionamento do ego sobre si mesmo. Mas o espelho nunca responde, ou melhor nunca discorda, ao contrário, seu silêncio eternamentecúmplice se faz íntimo das mais desmesuradas comparações.

    E é este primeiro momento de reflexão, embora reafirme a identidade, revelando a objetividade do subjetivo, que, por outro lado, também permite que o observador se observe, imaginando assim como é visto pelos outros. É desta reflexão primeira é que surgem as grandes idéias e os grandes empreendimentos. "Realidade ou alucinação, os mundos ordenados com estes instrumentos de precisão revelam a reversibilidade de todas as coisas: a certeza do aparente, a incerteza do existente."1 Aqui o espelho é comparado a um grande lago de águas límpidas e cristalinas, como um campo projetivo da experiência humana, onde o homem pensa e repensa sua identidade. Mas há também um segundo nível da consciência de si a que o espelho nos remete: o simbólico ou 'aquilo que está além' do imaginário. O tema de entrar através do espelho em um outro mundo, como em Alice de Carroll, tornou-se lugar comum no cinema. E este 'mergulho no inconsciente' sempre parece demarcar os limites da realidade virtual e da vida quotidiana, para a qual o protagonista sempre volta ao final da narrativa. Em muitos casos, o tema do espelho se confunde com o do sósia, do outro, do duplo. O reflexo, no entanto, não é apenas uma sombra: em algumas narrativas, o duplo se rebela contra sua matriz; em outras, o sósia se liberta de uma dimensão paralela existente através do espelho. Em outras podemos observar a idéia de passagem da realidade para fantasia e em boa parte delas, a idéia da imagem refletida, do duplo como um veículo do Eu para viagens imaginárias, um 'corpo astral'. É como contemplar no espelho:

    A forma e o reflexo se observam. Tu não és o reflexo, Mas o reflexo és tu.

    Mesmo nas estórias onde o sósia se rebela contra o protagonista e adquire vontade própria, existe esta relação, pois o outro se revolta contra sua função original que é a de representar a forma no mundo dos reflexos, de duplicar o ego em uma imagem que possibilita o autoconhecimento.

    O tema do espelho nos chama atenção, não apenas porque ele aparece em inúmeros mitos, refletindo assim um sentido claramente universal, mas sobretudo, pelo seu valor cognitivo e epistemológico. Porque ele inicialmente se apresenta como um símbolo da consciência.

    Consciência entendida não apenas como 'autoimagem social ou profissional', mas, sobretudo como identidade psíquica profunda, a verdadeira face sob as máscara do ego, a centelha luminosa, o reflexo interior do Fiat Lux. Platão e Plotino o comparavam à alma, metáfora que em seguida foi adotada por Santo Atanásio e Gregório Niseno. Mas é com São Paulo que o espelho se torna um duplo instrumento para o conhecimento antropomórfico de Deus e para o conhecimento cosmológico do Homem. "E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como em um espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é o Espírito. (...) Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido." 3

    Mas se o espelho é símbolo do autoconhecimento místico, da imagem e semelhança onde o Homem e Deus se refletem; ele também aparece constantemente como metáfora da ilusão narcísica, como confidente da beleza egóica, como um reflexo invertido da realidade. O símbolo da verdade é, ao mesmo tempo, signo da falsidade e da ilusão. E certamente foi este caráter paradoxal e contraditório que criou o fascínio dos espelhos. E, se os espelhos têm nos autores místicos e esotéricos seus entusiastas mais apaixonados; eles também enfrentam seus detratores militantes. O escritor e ensaísta Humberto Eco, por exemplo, que se dedica à tese de provar que 'os espelhos não produzem signos', nem 'imagens invertidas da realidade'. Para Eco, não é o espelho que gera os reflexos invertidos, nós é que introjetamos as regras de integração catóptrica.

    "(...) nosso cérebro se habitou a usar os espelhos tal como refletem fielmente aquilo que têm na frente, como também se habituou a inverter a imagem da retina que, esta sim, é realmente invertida. (...) Assim, usamos a imagem especular de modo certo, mas falamos a seu respeito de modo errado, como se esta fizesse aquilo que, efetivamente, nós a obrigamos a fazer (ou seja: a inverter-se)." 4

    Com base nesta evidência argumentativa, Eco desenvolve sete premissas em torno da afirmação de que 'as imagens especulares não são signos e que os signos não são imagens especulares', concluindo que o reflexo do espelho não é nem ao menos um ícone do objeto, mas uma duplicação do campo visual estimulante ali refletido e que os espelhos são meros 'designadores rígidos'. Embora Eco tenha parcialmente razão ao criticar o misticismo especular, ele, no entanto, se furta uma explicação crucial: se as imagens dos espelhos não representam linguagem, porque a linguagem se representa tão bem na imagem do espelho? Ou em outras palavras: porque o simbólico não se reflete no catóptrico e o catóptrico se reflete no simbólico? Estrutura Social e Inconsciente Coletivo.

    Devido à natureza inexorável e irreversível do tempo, à continuidade/eventualidade da vida; os eventos passados estão irremediavelmente perdidos, salvo pelo fato de ficarem registrados em algum tipo de memória, sejam nas convenções sociais da cultura ou na transmissão de informação ancestral e filogenética pela combinação de genes DNA\RNA nas células que formam os sistema nervoso central. O tempo passa e a linguagem tenta reter, gravar, lembrar. Da analogia das diferentes formas de representação do universo e da realidade, elaboramos, a partir da memória, modelos abstratos a que chamamos PARADIGMAS. Assim, a linguagem se desenvolve em oposição à irreversibilidade do tempo e dos processos biológicos, estabelecendo um mapa de correspondências involuntárias.

    Neste processo cognitivo, distinguimos metodologicamente duas instâncias simultâneas: uma primeira representação da consciência é analógica, involuntária e organizada pela experiência; e uma segunda representação, motivada e codificada

    segundo fatores sociais. A consciência interpreta a percepção dos sinais digitais dentro de um quadro de referências analógico ditadas pela experiência e as transmite segundo normas e regras coletivas. Por exemplo, o vermelho é universalmente associado ao sangue e o verde, à vegetação. Essas associações são inconscientes, mas, em um segundo momento, são racionalizadas e institucionalizadas como sinais convencionais de perigo e de passagem livre.

    E esta é a simetria complementar que caracteriza Signos e Símbolos. O Signo, em sua acepção clássica, é uma relação arbitrária ou convencional entre um conteúdo mental (ou significado) e uma imagem acústica (ou significante). Os Signos tratam de como interiorizamos, sem perceber, as regras da Consciência Social. O Símbolo, ao inverso, é uma experiência direta da percepção individual com o Inconsciente Coletivo, o 'patrimônio comum da humanidade', como sustentou pioneiramente C. G. Jung5 - em vastas passagens de sua obra.

    Consciência Individual (Atlan) Consciência Social (Durkhein) Inconsciente Individual (Freud) Pensamento SIGNO Inconsciente Coletivo (Jung) SÍMBOLO Realidade

    Essas, no entanto, são apenas definições provisórias, pois, como veremos adiante, não é aconselhável separar radicalmente nem os inconscientes individual e coletivo, nem os enfoques metodológicos opostos de Freud e Jung. Também é prudente entender a noção de consciência individual como uma 'presença do passado, uma atualização do querer inconsciente' imposto pela autoorganização e não um 'sujeito' soberano de si. Já para Ricoeur6 , o signo é o duplo de um objeto e o símbolo o duplo (ou múltiplo) sentido, isto é, como um signo que se refere a mais de um objeto.

    A partir dessa simetria entre o signo e o símbolo, pode-se utilizar um modelo geral para todos os discursos. Orlandi7 , por exemplo, sugere um modelo tipológico dos discursos bem mais sofisticado segundo a participação dos interlocutores na produção do Sentido. Discurso autoritário - O emissor impõe as suas necessidades de transmissão à realidade-referente da linguagem. O discurso tende à 'paráfrase', ou seja, à repetição da identidade do sentido e da ordem subjacente à sua transmissão. O resto é 'ruído'. Esta tendência à causalidade carateriza a função reflexiva da linguagem. Discurso lúdico - O receptor (ou a percepção) se apropria da realidade-referente, submetendo a transmissão a fatores aleatórios e/ou às necessidades de desenvolvimento da linguagem. O discurso aqui tende à polissemia e à multiplicidade do sentido. Esta tendência à irracionalidade caracteriza a função simbólica da linguagem. Discurso Polêmico - O sentido é construído pela reversibilidade dialógica entre os pólos interlocutores da linguagem. O discurso, neste caso, é uma 'tensão' entre a paráfrase e a polissemia, entre a identidade e a multiplicidade do sentido. Esta tensão caracteriza, devido ao seu efeito estruturante do sentido, a função compreensiva da linguagem.

    Pensamos que, dessa forma, o signo tende para a paráfrase, para identidade entre o referente e sua representação. O símbolo, por sua vez, tende para polissemia, para diferentes sentidos em uma única representação. E é esta dupla contradição da linguagem que nos possibilita interpretar o mundo de forma dialógica e interativa, onde somos modificados pelo mundo que transformamos.

    Há, portanto, dois eixos fundamentais que tangenciam o desenvolvimento da consciência e da linguagem: o concreto e o abstrato, o percebido e o imaginado, o presente e a memória, a duração contínua da percepção sensorial e as diferentes formas de representação que funcionam como arquivos onde os acontecimentos são memorizados. As noções de consciência social e de inconsciente coletivo são diferentes paradigmas de representação, não sendo necessariamente incompatíveis, mas, complementares. Frente ao tempo irreversível, tanto as memórias culturais quanto as genéticas são apenas linguagem. Linguagem, no entanto, que sempre oscilou entre duas possibilidades paradigmáticas opostas: a de exteriorizar o mais exatamente possível sua representação pessoal do universo, a imaginação simbólica, ou por de lado sua percepção pessoal em função das convenções necessárias à comunicação, à participação e à identidade do seu grupo em torno de uma representação coletiva da realidade, a representação sígnica. Alguns cientistas atuais (como David Bohn) identificam essas duas facetas da atividade mental como um produto direto do funcionamento dos dois hemisférios cerebrais, onde o lado esquerdo desenvolve o simbólico-afetivo e o direito, o lógico-racional.

    O espelho, a mulher e a lua

    Pelo fato de não emanarem luz própria mas de refleti-la, os espelhos foram associados à lua durante toda antigüidade. Desta associação chave, sobrepuseram-se as que relacionam o espelho ao feminino e à sua beleza. O simbolismo lunar do espelho, no entanto, não se limita às mulheres e aos poetas que lhes cantam a beleza, mas encontra lugar também entre os feiticeiros e mágicos, que utilizavam as superfícies espelhadas para entrar em transe, como é o caso dos xamãs siberianos. Possivelmente, a tradição de utilização mágica do espelho tenha tido sua origem no fato de ele ter sido usado na astronomia/astrologia para determinar o movimento das estrelas no firmamento. Os primeiros mapas celestes foram desenhados sob as superfícies espelhadas.

    Não é sem motivo que o verbo especular, operação mental, procede do latim especulum, que originariamente significava observar o céu, admirar e estudar suas constelações. Como os estudiosos da ciência dos astros desta época, invariavelmente, eram também magos, os espelhos foram lenta e gradativamente interiorizados em nossa memória filogenética. "De modo que o espelho não somente está fora de nós, como um artifício metálico, disco polido entrevisto no toucador ou no harém, mas se encontra também entre os hemisférios cerebrais, que invertem o contemplado transladando o esquerdo ao direito e vice-versa."8 É curioso observar que este duplo processo de representação da realidade através de espelhos se desenvolveu paralelamente em diversas culturas antigas - na China, na Índia, no Oriente Médio e no Mediterrâneo - gerando diferentes astrologias, mas uma única concepção universal de representação, um único modelo paradigmático de identidade.

    A contemplação deste 'espelho interior' é particularmente rica entre os místicos sufis. "Deus é, pois" - escreveu Ibn Árabi de Múrcia - "o espelho no qual tu mesmo te vês; do mesmo modo que tu és seu espelho em que Ele contempla seus nomes". Outro místico sufi,

    Shabistari, é ainda mais específico.

    "O não-ser é um espelho, o mundo uma imagem, o homem é o olho dessa imagem, e Ele a luz do olho. Quem alguma vez viu o olho através do qual todas as coisas são vistas? O mundo se tornou homem, e o homem, mundo; não há explicação mais clara que essa. Quando olhas atentamente no coração da matéria, Ele é ao mesmo tempo a visão, o olho, a coisa".9

    Também o Zohar10 , recomenda que, para que o homem possa conhecer a Glória, utilize-se de um espelho, observando-a indiretamente para não ser cego por sua luminosidade resplandecente. Ou seja, o tema do espelho é unanimidade entre os místicos, sejam judeus, cristãos ou muçulmanos. Este curioso consenso talvez explique a crença, também universal, de que quebrar um espelho acarreta em um longo período de azar ou má-sorte. Também a crença de que as 'criaturas sem alma sob a forma humana', como os vampiros e os zumbis, não têm suas imagens refletidas no espelho; deve ter sua origem na associação universal dos espelhos à imagem holográfica de Deus no Homem, feita por diferentes religiões.

    Mas se o espelho serve para que as donzelas e cortesãs reforcem seus egos e para que os sábios místicos se desvencilhem dos seus, ele também é uma poderosa arma de guerra, utilizada para atear fogo à distância através de raios luminosos, como no célebre episódio atribuído a Arquimedes de Siracusa, que com um gigantesco espelho catóptrico incendiava os navios que tentavam invadir a antiga ilha da Sicília. De todas as lendas envolvendo espelhos como arma a mais conhecida é, sem sombra de dúvida, a luta de Kadmo contra a Medusa, narrada por Platão no Timeu . Nesta narrativa, o herói vence a terrível górgona, cujo olhar tem o poder de transformar seus oponentes em pedra, com a ajuda de um espelho preso ao seu escudo. Kadmo fez com que a Medusa visualizasse sua própria imagem refletida no espelho e tivesse o mesmo destino de suas vítimas, petrificando-se para sempre. Ou seja, o espelho é uma arma capaz de fazer com que o outro se reconheça, com que o adversário tome consciência de si e de suas projeções. O mal reconhecendo a si mesmo como tal, perde toda a sua eficácia e sucumbe a sua própria consciência.

    Talvez por isso, em seu livro De Natura Deorum, Cícero lembre que o espelho é uma invenção de Esculápio, o deus da medicina; e os antigos sacerdotes nahuas do México costumavam levar um espelho pendurado no peito para que os "demais (homens) descobrissem seu verdadeiro rosto e ser corrigissem11 . Pena que este expediente simbólico não tenha funcionado com os conquistadores espanhóis. Estes, aliás, realizaram boa parte da conquista das américas a custa da sedução dos espelhos e de outras miçangas, presenteando-os aos indígenas, para que enquanto eles se distraíssem com seus reflexos, não percebessem o que se tramava às suas costas. E assim, para os diferentes povos selvagens, o espelho se tornou um instrumento de colonização e uma marca da cultura civilizada do ocidente.

    Com o tempo, a sobreposição de vários temas aparentemente contrários (verdade e ilusão; vaidade e sabedoria; arma e remédio, etc.) fez do símbolo do espelho uma metáfora da cultura moderna e do paradigma objetivo da ciência. E posteriormente, devido a sua reflexibilidade passiva frente ao pensamento consciente, o Espelho passou a ser comparado com o próprio inconsciente. O espelho e a ciência.

    Os espelhos, vistos como uma metáfora ou como um paradigma de uma sociedade que deseja ter uma imagem objetiva de si, são lugar-comum no pensamento moderno. Para o jovem Marx da Ideologia Alemã, por exemplo, a representação subjetiva que os homens fazem do mundo era um "reflexo invertido da realidade" e, a objetividade científica, uma negação dialética desta primeira representação involuntária. Assim, aos espelhos não faltaram analogias com a superestrutura social inspiradas pela noção de alienação no pensamento marxiano. Neste contexto, a cultura seria comparada a um espelho, cuja função principal seria inverter as relações sociais e legitimar a dominação de uma classe social.

    A bem da verdade, é bom que se diga que esta metáfora do espelho no marxismo é muito mais freqüente em um sentido crítico do que no positivo. aparecendo sempre de forma negativa e até pejorativa. Preocupados em combater o mecanicismo econômico e o idealismo, 'os verdadeiros marxistas' enfatizam que 'nem se pode reduzir a superestrutura a um mero reflexo, nem esquecer que a ação subjetiva é determinada socialmente'. E, neste sentido, o 'espelho' significa uma objetividade não-dialéctica.

    Em sua releitura estruturalista da psicanálise12 (1953-54), Lacan procura entender o complexo de Édipo em sua relação com a Linguagem. Para Freud, o período narcista da criança se concluiria com o desenvolvimento de um 'complexo' (de Édipo ou Electra) - uma preferência parcialmente positiva quando dirigida ao genitor do sexo oposto e hostilidade para com o genitor do mesmo sexo: o menino se livra de suas tendências edipianas por medo de castração; a menina substitui o apego primário à mãe e se fixa na figura paterna porque 'inveja seu pênis'.

    Lacan coloca um espelho nesta passagem das fases do narcismo pré-genital à socialização simbólica do indivíduo: entre os seis e oito meses, a criança se confronta com a própria imagem refletida em um espelho. Após compreender que a sua imagem refletida não é real e que reproduz todos seus movimentos, a criança reconstrói, pela primeira vez, os fragmentos ainda não unificados do próprio corpo como um objeto externo. A experiência do espelho seria, assim, um primeiro inprinting do social na mente, um introdução ao mundo da Linguagem, uma fase no desenvolvimento ontogenético do indivíduo. Este evento inaugural da identidade corporal demarca, para Lacan, as fronteiras do Imaginário e do Simbólico.

    Mas não houve tentativa mais séria de construir, a partir do pensamento científico, uma representação sígnica da realidade que a do filósofo Ludwig Wittgenstein que quis ver o mundo logicamente refletido pela linguagem. "O mundo é a totalidade dos fatos. O fato é a existência dos fatos atômicos. A representação lógica dos fatos é o pensamento." Assim, Wittgenstein inicia o Tractatus Lógico-Filosófico (1929), propondo que a linguagem funcione como uma espelho da realidade, um mapa para o conhecimento do mundo.

    A esta concepção fechada da representação do mundo, os filósofos da linguagem chamam de teoria pictórica13.

    A linguagem Relação pictorial

    Frase 1 .....................Frase n Nome 1.......................Nome n O mundo

    (palavras, frases, linguagem)

    Fato 1 .......................Fato n Objeto1......................Objeto n (coisas, fatos, mundo)

    De uma forma bem sintética, a metafísica atomista do Tractatus pode ser apresentada assim: as frase da linguagem natural são analisáveis como sendo compostas de combinações de frases elementares, as quais são modelos da realidade que expressam diretamente o pensamento. As frases elementares, por sua vez, consistem em combinações de nomes de objetos simples. As combinações de nomes das frases elementares são, assim, 'as pedras da construção do mundo', pois correspondem diretamente à combinação de objetos da realidade. Dessa forma, uma frase qualquer de nossa linguagem é, ou elementar, ou analisável como sendo constituída de uma combinação de frases elementares, as quais correspondem, pictoricamente, a combinações de estados de coisas ou fatos atômicos.

    Esta forma de pensar a linguagem 'como a imagem especular do mundo', como um quadro lógico de sentidos auto-referentes, levou Wittgenstein a um impasse epistemológico: o duplo enclausuramento mútuo entre o mundo e a linguagem. Assim, aprisionados em um enorme reflexo de múltiplas representações fragmentadas não temos acesso ao desconhecido e não podemos conquistar novas fronteiras: os limites da linguagem significam os próprios limites do mundo, ou, para citar as últimas palavras do Tractatus, 'o que não se pode falar, deve-se calar.'

    O certo é que Wittgenstein se deparou com um impasse epistemológico estrutural: a impossibilidade do discurso científico representar 'reflexivamente' a realidade; a incapacidade da cultura moderna oferecer uma imagem objetiva da sociedade; a irredutibilidade da linguagem à metáfora do espelho. A ciência, entanto, nunca abandonou seu projeto de representação objetiva de uma realidade simbólica sempre selvagem e refratária a um enquadramento formal definitivo.

    De forma que o desenvolvimento do pensamento científico, mais que um gradual acumular de informações, foi uma série de reviravoltas metodológicas, com sucessivas trocas de modelo de representação. O próprio conceito de paradigma - 'conjunto de estruturas cognitivas e epistemológicas' - surgiu de uma longa discussão metodológica. O conceito proposto por Kuhn14 , foi recentemente ampliado e popularizado por autores contemporâneos como Edgar Morin e David Bohn, lhe dando uma abrangência formativa mais cultural e psicológica.

    O renomado físico Ilya Prigogine15 , no entanto, em um patamar mais audacioso, acredita que a ciência apresenta uma finalidade contínua que ultrapassa todas as suas rupturas metodológicas: a morte da morte ou a eliminação do tempo. Nesse caso, as 'revoluções científicas', por mais radicais que pareçam, seriam meras ampliações dos limites de uma única metamorfose desta supressão: em Newton, o tempo seria linear (a velocidade dividida pelo espaço); em Einstein, a velocidade da luz seria um novo limite: o da sincronicidade (simultaneidade absoluta à distância); na mecânica quântica, a noção de tempo pulveriza-se na multiplicidade.

    Assim, a atividade científica consistiria na pífia tarefa de tentar representar os processos irreversíveis. Pífia porque esbarraria sempre nos limites da representação, colocando-se em um hiato temporal entre os fatos e os sonhos, entre a fossilização da memória e as projeções voláteis da consciência, entre 'o cristal e a fumaça' - como diz Henri Atlan16 . Viveríamos, assim, entre dois tempos distintos: um tempo sígnico, histórico e irreversível; e um tempo simbólico, sincrônico e descontínuo.

    Uma antiga lenda chinesa17 dá a justa ideía desta relação do conhecimento científico com o tempo e o carater simbólico da linguagem representados pelos espelhos. Certo dia, a princesa chinesa Wu, incapaz de compreender os ensinamentos filosóficos da escola budista Hwa Yen, pediu ao mestre Fa Tsang um exemplo simples da interelação de todas as coisas.

    O velho sábio esperou o anoitecer e levou a princesa a um salão do palácio cujas paredes, o teto e o chão estavam inteiramente cobertos por espelhos. Fa Tsang, então, acendeu uma vela no centro do aposento e a luz da chama se refletiu até o infinito.

    Depois mostrou à princesa um pequeno cristal e perguntou o que ela via refletido em uma de suas faces.

    "Cada mínima parcela da diversidade do universo é um reflexo particular da unidade que engloba todas as coisas" - explicou o sábio. "O Um no Todo, o Todo no Um: Um no um, Todo em todos"- recitou a jovem princesa Wu, feliz por afinal ter entendido o significado da frase.

    "Tenha calma, princesa! Hoje você entendeu o que é o infinito, falta agora compreender a eternidade" - advertiu o sábio, lamentando jocosamente o fato de que aquele modelo estático era incapaz de representar o movimento perpétuo e multidimensional do universo.

    O espelho do tempo

    Entre os tibetanos, a sabedoria do grande espelho ensina o segredo supremo: que o mundo das formas que ali se reflete não é mais que um aspecto do sunyata, a vacuidade. Para eles, o espelho é símbolo da transcendência temporal, da a-historicidade, da superação da continuidade da percepção sensorial pelos lampejos da eternidade18 . O símbolo do espelho é essa instantaneidade permanente e reflexiva da linguagem. Por isso, ele é um convite à eternidade, como, aliás, sugerem as muitas lendas que o associam à longevidade e à manutenção da beleza por meios sobrenaturais, das quais O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde é certamente a mais conhecida.

    Poderíamos, então, concluir que o mito do espelho não se constitui em um paradigma ou em um arquétipo, mas na própria noção de 'inconsciente coletivo' ou de unidade fundamental da Linguagem. O espelho é, assim, um dispositivo complexo, imagem paradigmática do próprio jogo de inversões da linguagem, cuja ambivalência expressa sempre um paradoxo: verdade absoluta e ilusão passageira, beleza superficial e profunda sabedoria, arma e remédio, alienação social e reintegração psíquica.

    Mas se o espelho é o emblema de alma coletiva, ou pelo menos, se encontramos nele um símbolo da cultura ou a metáfora mais abstrata e paradigmática da linguagem, ele também está na base e no limite de nossa investigação científica microscópica e telescópica do universo. Além de símbolo da imaginação, o espelho é ainda precioso instrumento de observação objetiva. Ele está nos limites da linguagem não apenas como uma imagem mas como um objeto real através do qual compreendemos a realidade.

    Entre os diferentes motivos alegados por Humberto Eco para explicar "porque os espelhos não produzem signos" (a imagem especular não é interpretável, não é relacionável a um conteúdo, não pode ser utilizada para mentir, não é independente do meio a partir do qual é modulada), há um que é fundamental: o tempo. Enquanto os signos funcionam em substituição de seus referentes, no espelho, objeto e imagem estão, sempre, simultaneamente presentes. A imagem especular só é possível pela presença de algo que é, instantânea e circunstaneamente, duplicado.

    Mas, se o catóptrico e o sígnico guardam apenas uma relação equivocada de semelhança, como quer Eco, é porque é o homem que produz a linguagem e não o espelho, que não passa de um objeto inanimado. Na verdade, as afirmações óbvias de Humberto Eco só fazem sentido devido ao fato dele confundir os níveis sígnico de reflexão e simbólico de interpretação em uma única forma 'semiósica' de manifestação da linguagem. Para nós, ao contrário, não se trata de observar os reflexos óticos e físicos da linguagem em um espelho real, mas sim de entender o valor simbólico que a linguagem faz da imagem dos espelhos. Saber porque ela (e não outra imagem) representa a própria representação e porque mantêm, nos limites entre a natureza e a cultura, uma relação de intimidade com a morte e com o tempo.

    Porém, somos forçados a concordar com Eco em um ponto chave: não podemos comparar os reflexos sintagmáticos da imagem especular aos sinais signo-simbólicos da linguagem, pois enquanto o dispositivo especular da função reflexiva enfatiza sempre uma diferença entre o objeto, o sentido e sua referência, os espectros do espelho reafirmam provisoriamente apenas uma identidade imaginária. Em si, os reflexos nunca são ambivalentes ou interpretáveis, eles são apenas imagem duplicada. Já o espelho, visto como imagem simbólica, não é apenas uma simples estrutura duplicadora da realidade porque também contextualiza e até transforma esta realidade, uma vez que remete o observador a contemplar analogicamente o conjunto da representação. Enquanto os reflexos nos encantam e enganam como pseudo-signos, o espelho representa a consciência de que toda identidade é passageira e parcial.

    Dessa forma, a teoria defendida por Eco dos designadores rígidos é vítima da magia dos espelhos: o universo catóptrico é uma realidade que parece virtual e o universo da linguagem é uma virtualidade que parece real. Os dois universos, no entanto, só se interpenetram em um único sentido, pois enquanto o catóptrico apenas reproduz uma imagem que se realiza, o simbólico dá ao espelho um sentido cognitivo.

    Resta apenas a lembrança àqueles que não se reconheceram neste texto, que por mais que procurem um outro duplo com o qual se identifiquem, sempre encontrarão o sentimento de incompletude tão próprio aos espelhos e à instantaneidade dos seus múltiplos reflexos - dada a vastidão e a complexidade deste tema permanente. Ou eterno, como querem os místicos e os adeptos da simultaneidade absoluta.

    Notas:

    1) BALTRUSAITIS, JURGIS. El Espejo. Madri: Miraguano, 1988 apud SATZ, MARIO O Dador Alegre - Ensaios de Kabala p.42 Porto Alegre: Editora Ground, 1991.

    2) TOZAN, MAESTRO Hoyo Zan Mai, Samadhi del Tesouro Ilusorio. Barcelona: Adiax, 1981. apud SATZ, M. Idem p.40

    3) Coríntios l3, l2 e 2 Coríntios 3, l8

    4) ECO, HUMBERTO. Sobre os espelhos e outros ensaios. p. 15 Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

    5) JUNG, CARL-GUSTAV. Obras Complestas. Petrópolis: Vozes, 1980/96.

    6) RICOEUR, PAUL. O Conflito das Interpretações, ensaios de hermenêutica. Lisboa: Rés, 1988.

    7) ORLANDI, ENI O Funcionamento da Linguagem, as Formas do Discurso, A Análise do Discurso Pedagógico. São Paulo: Ed Brazilense. 1980.

    8) SATZ, M. Idem p.40

    9) MEYEROVITCH, ELes Songes et leur interpretation chez le Penrsans, Paris, 1959 apud SATZ, Idem p. 42

    10) TRYON, RENÉ. A Cabala e a Tradição Judaica. p. 135 Lisboa: Edições 70, 1979.

    11) SATZ, M. Idem p.41

    12) LACAN, J. Seminário I - escritos técnicos de Freud (1953-54). Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1986.

    13) COSTA, CLÁUDIO. Filosofia Analítica. p.70. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992. Segundo Costa, o próprio Wittgenstein abandonaria esta concepção pictórica do Tractatus em suas obras posteriores, passando a ver a linguagem de uma forma mais dinâmica: os jogos de linguagem. A teoria pictórica, no entanto, teria sido desenvolvida pelo positivismo lógico-empírico denominado de 'Círculo de Viena'. Outros autores rejeitam esta 'ruptura'.

    14) KUHN, THOMAS. A Estrutura das Revoluções Científicas. Rio de Janeiro: Perspectiva, 1990.

    15) PRIGOGINE, ILYA. A Nova Aliança Paris: Galimard, 1986.

    16) ATLAN, HENRI. Entre o cristal e a fumaça. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992

    17) GROF, STANISLAW. Para além do Célebro

    18) SATZ, M. Idem p.42


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